Diretor e atrizes celebram a presença em um dos mais tradicionais festivais de cinema do país, em um momento que reforça trajetórias, parcerias e novos caminhos no audiovisual.
![]() |
| Festival de Gramado | Foto: Divulgação |
Há momentos na trajetória de um artista que não cabem apenas na contagem de troféus. Em algumas carreiras, chegar a um espaço que durante anos pareceu distante já representa, por si só, uma mudança de perspectiva.
Foi sob esse significado que o diretor e roteirista Naican Escobar e as atrizes Mariana Willemberg e Mary Mello passaram pelo tapete vermelho da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, realizada em agosto de 2026, na Serra Gaúcha.
Um dos eventos mais tradicionais do audiovisual brasileiro, Gramado atravessa mais de cinco décadas acompanhando diferentes momentos da produção nacional. Desde sua primeira edição oficial, em 1973, o festival ajudou a consolidar o Kikito como um dos símbolos mais reconhecidos do cinema brasileiro e transformou a cidade gaúcha, todos os anos, em ponto de encontro de realizadores, atores, produtores, imprensa e público.
Na edição de 2026, realizada entre os dias 12 e 22 de agosto, o tradicional tapete vermelho voltou a concentrar parte desse movimento, recebendo elencos, diretores e equipes das produções participantes.
Para Escobar, Willemberg e Mello, porém, a passagem por Gramado teve um significado que vai além das fotografias registradas no festival. Os três compartilham uma trajetória construída em diferentes projetos do cinema independente, em funções que se cruzam entre direção, roteiro e atuação.
Filmes aproximam os três profissionais
Um dos trabalhos que melhor representa essa conexão é “É Possível Sonhar”.
Dirigido por Naican Escobar, o filme teve Mariana Willemberg entre os nomes envolvidos no roteiro e Mary Mello no elenco principal. Filmada no município de Jari, no interior do Rio Grande do Sul, a produção nasceu dentro de uma estrutura independente e aborda relações familiares, perdas, amadurecimento e a tentativa de reconstruir caminhos diante das adversidades.
A parceria entre Escobar e Willemberg também se estende a “O Destino de Elisa Amyr”, adaptação cinematográfica de uma obra escrita pelo cineasta gaúcho.
Na história, Elisa é uma jovem de 17 anos que precisa enfrentar o luto após a morte da melhor amiga e reconstruir, aos poucos, sua própria relação com a vida. Mariana Willemberg foi escolhida para viver a protagonista, enquanto Escobar integra o projeto na codireção.
Segundo informações da produção, “O Destino de Elisa Amyr” e “É Possível Sonhar” estiveram entre os trabalhos relacionados à disputa da edição, o que tornou a presença do grupo em Gramado ainda mais simbólica.
Mais do que ter dois projetos ligados ao mesmo festival, o momento colocou em perspectiva uma trajetória iniciada muito antes das luzes do tapete vermelho. Ela passa pela escrita dos roteiros, pela formação das equipes, pelos dias de filmagem, pela montagem, pelas inscrições em festivais e, sobretudo, pelas dificuldades características de quem escolhe produzir cinema de forma independente.
“Perder também faz parte”
Festivais carregam expectativas. Uma seleção pode ampliar a visibilidade de um filme; um prêmio pode abrir portas, favorecer novas parcerias e contribuir para sua circulação. Ainda assim, uma carreira no audiovisual dificilmente se sustenta apenas sobre vitórias.
Ao falar sobre a experiência em Gramado, Naican Escobar prefere colocar o percurso no centro da discussão.
“É claro que, quando inscrevemos um filme em um festival, existe o sonho de vencer. Mas perder também faz parte. O cinema ensina isso o tempo todo. Só o fato de vermos trabalhos que construímos chegando à disputa em um ambiente da dimensão de Gramado já é motivo de muito orgulho. Você olha ao redor e percebe quantos profissionais extraordinários estão ali, quantas histórias foram construídas antes de nós. Estar nesse espaço significa que continuamos avançando. O prêmio é importante, mas não pode ser a única medida de uma trajetória”, afirma o diretor.
A fala traduz uma realidade familiar a boa parte de quem trabalha fora dos grandes centros de produção ou desenvolve projetos independentes. Entre a primeira versão de um roteiro e a exibição de um filme existe um percurso pouco visível ao público: busca por recursos, formação de equipe, ajustes de produção, filmagens, pós-produção, inscrições, recusas e novas tentativas.
Em entrevistas anteriores sobre a realização de “É Possível Sonhar”, Escobar já havia defendido a persistência como parte fundamental desse processo — encontrar parceiros, apresentar projetos, enfrentar limitações e continuar produzindo mesmo quando as condições não são as ideais.
Nesse contexto, Gramado surge não necessariamente como um ponto de chegada, mas como mais uma etapa de uma carreira ainda em construção.
Mariana Willemberg entre a atuação e o roteiro
A trajetória de Mariana Willemberg também revela uma característica cada vez mais presente no audiovisual independente: profissionais que transitam entre diferentes áreas da criação.
Em “O Destino de Elisa Amyr”, Willemberg assume o papel central da narrativa ao interpretar Elisa, personagem atravessada por temas como amizade, luto, depressão e reconstrução emocional.
Já em “É Possível Sonhar”, sua participação se desloca para outra etapa da produção. Mariana aparece entre os responsáveis pela construção do roteiro do filme dirigido por Escobar.
A passagem entre interpretação e escrita demonstra uma atuação profissional que não se limita ao trabalho diante das câmeras. Ao participar também da elaboração das histórias, Willemberg amplia sua presença no processo criativo das obras das quais faz parte.
Num mercado em que artistas independentes frequentemente acumulam funções e buscam maior autonomia sobre seus projetos, essa versatilidade pode se tornar um elemento importante na consolidação de uma trajetória de longo prazo.
Mary Mello e uma carreira construída trabalho a trabalho
Mary Mello completa esse encontro profissional.
A atriz integra o elenco principal de “É Possível Sonhar”, ao lado de Olibaldo Costa, Ângelo Maidana e Erick Vidal, e também esteve presente no Festival de Gramado.
Como ocorre com grande parte dos intérpretes, uma carreira dificilmente se define por um único papel. São personagens, testes, gravações, novos encontros profissionais e participações em diferentes produções que, somados, passam a formar uma trajetória.
Nesse percurso, os festivais desempenham um papel particular. Além das sessões e premiações, são espaços onde atores, diretores e produtores estabelecem contatos, reencontram profissionais do setor e apresentam seus trabalhos a novos públicos.
A passagem de Mary Mello por Gramado representa mais um desses capítulos.
O peso de chegar a Gramado
O Festival de Cinema de Gramado vai muito além de sua cerimônia de premiação.
Ao longo de sua história, o evento consolidou uma programação formada por exibições, debates, homenagens, encontros profissionais e atividades voltadas ao desenvolvimento do setor audiovisual. Em 2026, iniciativas ligadas ao Gramado Film Market também reforçaram esse caráter de aproximação entre profissionais de diferentes regiões do país.
É dentro desse ambiente que a presença de Naican Escobar, Mariana Willemberg e Mary Mello ganha dimensão.
Por trás das imagens do tapete vermelho existem produções realizadas, projetos desenvolvidos ao longo de anos e relações profissionais construídas de filme em filme.
O percurso de “O Destino de Elisa Amyr” ajuda a ilustrar essa dinâmica. Concebido como adaptação de uma obra de Escobar, o projeto reúne o diretor Marcos Kligman, Naican Escobar na codireção e Mariana Willemberg como protagonista.
Já “É Possível Sonhar” conecta diretamente os três nomes: Escobar na direção, Willemberg no roteiro e Mello no elenco.
São profissionais ocupando funções diferentes dentro de um mesmo processo: transformar histórias escritas em imagens capazes de chegar ao público.
Muito além de uma fotografia
O tapete vermelho é, naturalmente, a imagem que permanece.
As luzes, o Palácio dos Festivais, o Kikito e o movimento de artistas fazem de Gramado, durante alguns dias, um dos principais pontos de atenção do audiovisual brasileiro. Mas a carreira de um profissional de cinema não é construída nos poucos segundos diante das câmeras.
Ela começa muito antes.
Está nos meses — e muitas vezes anos — entre uma ideia e sua realização. Está nas reuniões, nos roteiros reescritos, nas dificuldades para montar uma equipe, nas gravações, na edição e em cada tentativa de encontrar espaço para que um filme seja visto.
Para Naican Escobar, Mariana Willemberg e Mary Mello, a passagem pela 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado pode ser compreendida justamente dessa forma: como o registro de um momento dentro de uma história profissional que ainda está sendo escrita.
Uma trajetória feita de direção, roteiro, interpretação, cinema independente e projetos que precisaram atravessar dificuldades antes de chegar às telas.
Sem o troféu desta vez, permanece uma conquista menos imediata, mas igualmente relevante para quem trabalha no audiovisual: estar presente, colocar novos projetos em circulação, ampliar conexões e seguir avançando.
Porque, antes de qualquer prêmio, existe um desafio permanente para quem escolheu fazer do cinema uma profissão:
continuar fazendo o próximo filme.
Acompanhe os Artistas: