Práticas energéticas têm crescido no mundo todo, mas especialistas alertam para a importância de integrar espiritualidade, corpo e conhecimento científico
O interesse por espiritualidade, autoconhecimento e terapias energéticas cresceu de forma significativa nos últimos anos. Práticas como meditação, yoga, respiração, reiki e trabalhos energéticos passaram a ocupar cada vez mais espaço nas redes sociais e nos ambientes terapêuticos.
Dentro desse universo, um conceito antigo das tradições do Yoga e do Tantra tem despertado curiosidade e também muitas dúvidas: a energia Kundalini, descrita como uma força vital latente presente no corpo humano.
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| Gabi Nery |
| Foto: Divulgação |
Durante séculos, esse conhecimento esteve ligado a caminhos espirituais mais restritos, associados a longos processos de preparação, disciplina e rituais de purificação no caminho em direção à iluminação.
Nos últimos anos, no entanto, a Kundalini passou a ganhar popularidade no Ocidente. Sessões de “ativação” começaram a circular nas redes sociais e até mesmo algumas celebridades relataram experiências com esse tipo de prática.
Embora essa popularização tenha ampliado o acesso ao tema, especialistas alertam que ainda existem muitos mitos, medos e desinformação sobre a Kundalini.
Nas redes sociais, vídeos sensacionalistas de sessões em que pessoas se movimentam intensamente ou apresentam reações corporais fortes passaram a circular como demonstrações de “ativação energética”. Ao mesmo tempo, pouco se fala sobre os riscos que a mobilização dessa energia pode representar quando acontece sem preparo adequado.
“A busca pela Kundalini tem crescido porque muitas pessoas sentem que apenas entender a própria vida racionalmente já não é suficiente. Elas querem sentir transformação. Mas é importante compreender que, quando essa energia começa a ser trabalhada, ela não traz apenas experiências místicas e prazerosas, muitas vezes também ativa conteúdos emocionais antigos armazenados no corpo”, explica a PhD, sexóloga e terapeuta Gabi Nery, especialista no tema e criadora do método KundaHealing®️, única formação em Kundalini que possui certificação de qualificação profissional reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC).
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, os casos de ansiedade e depressão cresceram cerca de 25% no mundo após a pandemia. Esse aumento expressivo do sofrimento emocional ajuda a explicar por que tantas pessoas passaram a buscar caminhos de autoconhecimento, espiritualidade e reconexão consigo mesmas.
Muita gente alcançou aquilo que culturalmente era apresentado como o caminho para a felicidade, como carreira, família, estabilidade financeira e conquistas materiais, e ainda assim sente um vazio profundo. Nesse contexto, a espiritualidade e o trabalho com a energia da kundalini têm surgido para muitos como um caminho de autoconhecimento e de reconexão com o próprio sentido da vida.
Nas tradições do Yoga e do Tantra, a Kundalini é simbolizada como uma serpente adormecida na base da coluna vertebral, representando o potencial de energia e consciência presente em todo ser humano. Em uma linguagem mais acessível, essa energia pode ser compreendida como uma expressão da própria vitalidade humana, ligada à criatividade, à sexualidade, à capacidade de transformação e à expansão da consciência.
Quando essa energia começa a ser trabalhada, algumas pessoas relatam sensações físicas como calor, vibrações ou movimentos involuntários no corpo, além de mudanças emocionais e períodos de introspecção mais profunda. Mas especialistas explicam que essas manifestações não devem ser interpretadas automaticamente como sinais de evolução espiritual.
Segundo Gabi Nery, muitas vezes se vende a ideia de que vivências intensas e catarses são sinais de cura. Mas intensidade não é sinônimo de transformação. Em alguns casos, a ativação pode ser tão intensa que, após a experiência, a pessoa entra em um estado de desorganização emocional.
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| Foto: Divulgação |
“Trabalhar com a energia da Kundalini não significa apenas produzir experiências intensas. Significa mobilizar conteúdos emocionais profundos que estavam armazenados no corpo e que muitas vezes são justamente o que mantém a energia vital bloqueada. Por isso, esse trabalho precisa ser conduzido com responsabilidade e compreensão do funcionamento do sistema nervoso. Quando o processo acontece rápido demais ou sem o suporte adequado, a carga mobilizada pode ser maior do que a capacidade de integração da pessoa”, explica a especialista.
Esse olhar levou Gabi Nery a estruturar esses princípios no método KundaHealing®️, formação que busca integrar espiritualidade, trauma e conhecimento científico. O curso é atualmente o único no Brasil voltado ao trabalho com Kundalini que possui certificação de qualificação profissional reconhecida pelo MEC.
Outro ponto de atenção está na forma como essas práticas passaram a circular nas redes sociais. A internet ampliou o acesso à informação, mas também facilitou a circulação de interpretações equivocadas, rasas ou sensacionalistas sobre fenômenos energéticos.
Nos últimos anos, técnicas prometendo ativação de Kundalini ou expansão instantânea da consciência passaram a se multiplicar, muitas vezes acompanhados de promessas de transformações rápidas ou até milagrosas, o que levanta questionamentos sobre responsabilidade e preparo terapêutico.
Ao mesmo tempo, também circulam nas redes interpretações extremamente distorcidas, incluindo a ideia de que a Kundalini seria a manifestação de um espírito obsessor ou de algo perigoso por si só, o que contribui para aumentar ainda mais os mitos e o medo em torno do tema.
Segundo Gabi Nery, é importante compreender que ninguém ativa a Kundalini de outra pessoa. “A Kundalini é a nossa energia vital. O facilitador pode criar condições e oferecer segurança e suporte para que o processo aconteça, mas essa ativação responde à própria inteligência do corpo”, explica.
A especialista também destaca que existem diferentes formas pelas quais a energia Kundalini pode se ativar. Algumas pessoas relatam ativações espontâneas e involuntárias, enquanto outras passam por experiências intensas durante práticas espirituais ou terapêuticas conduzidas por facilitadores.
Quando esses processos acontecem sem preparo ou sem compreensão sobre o funcionamento do sistema nervoso, a intensidade das experiências pode se tornar difícil de compreender ou integrar naquele momento.
“Todos os dias recebo mensagens de pessoas que relatam ter vivido experiências muito intensas sem o suporte adequado. Algumas participaram de sessões conduzidas por facilitadores sem preparo para lidar com o que pode emergir, enquanto outras passaram por ativações espontâneas. Em ambos os casos, quando não há compreensão sobre trauma e regulação do sistema nervoso, a movimentação dessa energia pode levar à retraumatização ou a quadros conhecidos como emergência espiritual”, afirma Gabi Nery.
Nesses casos, explica a especialista, muitas pessoas relatam entrar em estados de grande desorganização interna. A intensidade das experiências pode ultrapassar a capacidade de assimilação naquele momento, e a própria vida começa a passar por mudanças rápidas demais para que a pessoa consiga compreender ou integrar o que está acontecendo. Alterações no sono, sensações físicas intensas, crises de ansiedade, oscilações emocionais, hipersensibilidade, hipervigilânca, casos de dissociação e a sensação de perder as próprias referências internas são relatos frequentes nesses processos.
Processos profundos de transformação levam tempo e exigem integração. Caminhos sérios de autoconhecimento não prometem resultados rápidos nem soluções universais.
Outro critério importante para diferenciar abordagens responsáveis é observar se a prática estimula autonomia ou dependência.
Quando uma abordagem coloca o facilitador como alguém que possui um poder especial sobre os outros ou como único detentor da verdade, isso costuma ser um sinal de alerta.
No entanto, se conduzido com preparo e responsabilidade, o trabalho com energia vital pode gerar transformações profundas na vida das pessoas.
Mudanças costumam aparecer em diferentes áreas da vida, como maior clareza emocional, reconexão com o próprio corpo e fortalecimento da autonomia pessoal.
Muitas pessoas relatam mais energia e disposição no dia a dia, maior assertividade nas próprias escolhas e uma sensação de protagonismo sobre a própria vida. Também é comum que passem a ocupar espaços que antes não se sentiam capazes ou merecedoras de ocupar, reorganizando relações, hábitos e decisões profissionais.
A especialista também chama atenção para um problema que ela chama de “dissociação espiritual”, que pode surgir quando a busca por experiências espirituais passa a ser usada como uma forma de evitar emoções difíceis ou escapar de conflitos internos.
Para ela, a espiritualidade não deve ser uma fuga da realidade ou uma tentativa de evitar sentir aquilo que precisa ser sentido para ser integrado. “Espiritualidade não é sobre sair da vida. É sobre voltar para o corpo, para as sensações e para a presença.”
Para quem sente que está vivendo um momento de transição interna ou despertar de consciência, a recomendação é evitar pressa e buscar acompanhamento qualificado.
Processos profundos de autoconhecimento acontecem de forma gradual e exigem respeito pelo ritmo do corpo e da mente.
Para a especialista, o ponto central desse processo não é criar dependência de facilitadores ou mestres, mas devolver às pessoas a capacidade de se escutarem e conduzirem a própria vida com mais consciência.
“A energia da Kundalini não pertence a gurus. Ela pertence à própria vida que existe dentro de cada pessoa”, conclui.
Para acompanhar mais conteúdos sobre Kundalini, trauma e integração entre espiritualidade e ciência, siga Gabi Nery no Instagram @gabineryy.