Nova proposta pedagógica aposta no jogo de estratégia para estimular raciocínio lógico, concentração e resolução de problemas
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O tradicional tabuleiro preto e branco ganhou espaço definitivo na rotina escolar. O Colégio Marista Champagnat, em Ribeirão Preto, passou a incluir aulas de xadrez na grade curricular dos estudantes do 2º ao 5º ano do Ensino Fundamental, como parte de uma nova proposta pedagógica voltada ao desenvolvimento do raciocínio lógico e ao apoio no aprendizado da Matemática. A iniciativa ganha ainda mais relevância neste mês de março, quando o mundo celebra o Dia Internacional da Matemática, em 14 de março, data escolhida em homenagem ao número π (3,14) e instituída pela UNESCO como um convite para enxergar a matemática além dos números.
A proposta amplia as formas de aprender dentro da sala de aula ao conectar conteúdos acadêmicos a experiências práticas e desafiadoras desde a infância. Reconhecido por estimular planejamento, concentração e tomada de decisão, o xadrez passa a atuar como ferramenta complementar no desenvolvimento das habilidades cognitivas e socioemocionais dos alunos.
As aulas acontecem em sistema de revezamento. Enquanto metade da turma participa das atividades no tabuleiro com o professor especializado em xadrez, o outro grupo permanece em sala com o professor de Matemática trabalhando na resolução de problemas. Após um período, os estudantes trocam de atividade, permitindo que teoria e prática dialoguem ao longo do mesmo encontro.
"A proposta é mostrar que o raciocínio matemático pode ser desenvolvido de forma significativa e acessível. No xadrez, o estudante aprende a antecipar consequências, testar estratégias e compreender que o erro faz parte do processo de aprendizagem", explica o professor de xadrez Kevin Koto Magalhães.
Para ele, a conexão entre o jogo e os conteúdos escolares é mais direta do que parece. "Às vezes a criança está com dificuldade de cálculo, de geometria, de multiplicação. O xadrez ajuda de maneira lúdica, saindo daquelas ferramentas mais tradicionais e fazendo a criança desenvolver praticamente as mesmas coisas de uma forma mais divertida. Ao invés de calcular números, ela vai calcular jogadas. É a mesma coisa", afirma.
O professor também destaca o impacto do jogo na formação de valores, destacando que xadrez é muito completo, é um jogo que desenvolve estratégia, organização e disciplina, nele, você não pode simplesmente agir por impulso, requer planejamento. Além disso, o jogo preza o respeito ao adversário. O cumprimento é obrigatório: você não começa sem cumprimentar e não termina sem cumprimentar também. É regra.
O uso de jogos estratégicos como ferramenta pedagógica tem ganhado espaço em diferentes contextos educacionais. Estudos científicos apontam que atividades cognitivamente desafiadoras e prazerosas, como o xadrez, estão associadas ao desenvolvimento de habilidades relacionadas à atenção e memória. Segundo revisão publicada no periódico International Journal of Environmental Research and Public Health (2019), atividades intelectuais e sociais estimulantes podem contribuir para a chamada "reserva cognitiva", mecanismo relacionado à manutenção das funções mentais ao longo da vida e associado a menor risco de declínio cognitivo.
Extracurricular
No Marista Champagnat, o projeto também aproveita a experiência já existente no Núcleo de Atividades Complementares (NAC), onde o xadrez era oferecido como modalidade extracurricular. Agora, a prática passa a alcançar todos os estudantes do segmento, independentemente da participação em atividades optativas.
Para os alunos, a novidade chega como uma oportunidade de aprender de forma diferente. Ian Soriano, estudante do 5º ano do Ensino Fundamental, conta o que o jogo tem proporcionado para ele. "Por meio do xadrez, eu aprendi a antecipar consequências, me planejar e resolver problemas. O que eu mais gosto é que não existem diferenças físicas no jogo."
O interesse pelo jogo já vinha crescendo dentro da comunidade escolar. No segundo semestre do ano passado, o colégio sediou um festival interescolar de xadrez que reuniu instituições da região e resultou em diversas medalhas conquistadas pelos estudantes da própria unidade.
Segundo a direção, a expectativa é que o contato frequente com o jogo contribua para fortalecer a autonomia dos alunos diante dos desafios acadêmicos, especialmente nas disciplinas consideradas mais complexas. "A aprendizagem acontece quando o estudante experimenta, testa caminhos e entende que cada decisão gera consequências. O xadrez favorece exatamente esse percurso, incentivando confiança e responsabilidade desde os primeiros anos escolares", destaca Cristiane Wengzynski.