Por: Maria Alice Domingues
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| Foto: Divulgação |
A pediatria brasileira vive um momento de transformação e enfrenta desafios que vão além do atendimento clínico. Questões estruturais, mudanças sociais e a evolução da própria Medicina têm impactado diretamente o cuidado com crianças e adolescentes em todo o país. Nesse cenário, especialistas alertam para a necessidade de valorização da área e de fortalecimento da formação médica.
A neonatologista Dra. Carla Montenegro Dias, mestre e preceptora do Hospital das Clínicas de Pernambuco há mais de dez anos, está entre os profissionais que acompanham de perto essa realidade. Atuando na maternidade e na formação de estudantes de Medicina e médicos residentes de Pediatria e Neonatologia, ela observa as dificuldades e as necessidades da especialidade no dia a dia.
“A pediatria enfrenta hoje uma escassez de profissionais qualificados, principalmente em regiões mais afastadas dos grandes centros”, afirma a médica. Segundo ela, muitos recém-formados optam por áreas mais rentáveis ou com jornadas previsíveis, o que reduz a presença de pediatras na atenção básica.
De acordo com a Dra. Carla, a ausência de especialistas nesse nível de atendimento tem impacto direto na saúde das crianças. “Quando faltam pediatras nos postos e ambulatórios, as emergências acabam virando porta de entrada para problemas que poderiam ser resolvidos antes”, explica. A consequência, segundo a especialista, é o aumento de diagnósticos tardios e a perda do acompanhamento preventivo, fundamental para o desenvolvimento infantil. Segundo a doutora, o problema não ocorre somente na Pediatria. Muitas vezes, o pré-natal inadequado ou a falta de acompanhamento da gestante no nível básico aumentam muito o risco de nascimentos de bebês com problemas de saúde e até de óbito fetal nas grandes maternidades.
Nomeada conselheira administrativa da Cooperativa de Pediatras de Pernambuco, a COPEPE, Dra. Carla também participa de decisões que orientam o atendimento pediátrico em consultórios e hospitais no estado. Para ela, a concentração de profissionais nos grandes centros é um dos principais entraves. “A busca por melhores condições de trabalho, segurança e infraestrutura concentra especialistas nas capitais e deixa regiões vulneráveis com cobertura insuficiente”, destaca.
Um grande desafio enfrentado por médicos e outros profissionais de saúde, em Pernambuco e no Brasil, é a violência no ambiente de trabalho nas unidades de saúde. Dados do Conselho Federal de Medicina indicam que, apenas em 2024, foram registrados 4562 boletins de ocorrência por médicos no Brasil, envolvendo crimes como lesão corporal e ameaça dentro de unidades de saúde.
Os dados ainda não refletem a realidade enfrentada pelos profissionais, que, na maioria das vezes, não registram as ocorrências. “Qualquer médico que já trabalhou por algum tempo em unidades de saúde já foi ou conhece colegas que foram alvo de violência física ou psicológica, ameaças de violência por parte da população atendida.” Não há segurança nem vigilância adequada nas clínicas, e as portas estão sempre abertas à população. “São frequentes as invasões das clínicas por parte de pessoas sob uso de bebidas alcoólicas, entorpecentes e com transtornos psiquiátricos e comportamento violento. Além disso, a maioria dos profissionais Pediatras são do gênero feminino, o que contribui ainda mais para a sensação de insegurança em pequenas e médias unidades de saúde.”
Outro desafio é a carga emocional da profissão. O contato direto com doenças crônicas, situações delicadas e a ansiedade das famílias exige preparo técnico e psicológico. “O pediatra precisa cuidar da criança e também orientar os pais, o que exige sensibilidade e comunicação clara”, afirma.
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A estrutura dos serviços de saúde também preocupa. Na atenção básica à saúde, os profissionais lidam com a demora de meses por exames e falta de vagas para encaminhar casos mais específicos para as subespecialidades. Isso limita a atuação dos profissionais e dificulta a oferta de um cuidado completo e seguro. Em geral, esses são os maiores fatores que fazem os pediatras desistirem de atuar em áreas mais afastadas e se estabelecerem em grandes centros e hospitais da cidade grande, ressalta Dra. Carla.
Também atuando na avaliação de Trabalhos de Conclusão de Curso de residências médicas em Pediatria e Neonatologia, a especialista contribui para a formação de novos médicos e para o incentivo à produção científica. Para ela, o futuro da pediatria passa por investimento em educação e valorização profissional.
“Fortalecer a pediatria é investir diretamente na saúde, segurança e no futuro das próximas gerações”, conclui Dra. Carla Montenegro Dias.