Medicamentos usados no tratamento da obesidade podem diminuir em até 20% o risco de morte cardiovascular em pacientes de alto risco
Durante muito tempo, o tratamento da obesidade foi associado principalmente à estética. Emagrecer era visto como uma questão de aparência ou autoestima. No entanto, a medicina tem reforçado cada vez mais que a obesidade é uma doença crônica e um dos principais fatores de risco para problemas cardiovasculares graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
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Dr. Renan Cintra de Alvarenga Oliveira |
| Foto: Divulgação |
Um estudo internacional publicado em 2023 trouxe novos dados que reforçam essa relação. A pesquisa, conhecida como estudo SELECT, acompanhou milhares de pacientes que já tinham doença cardiovascular estabelecida — pessoas que haviam sofrido infarto, AVC ou apresentavam doença arterial significativa — e que também apresentavam sobrepeso ou obesidade, com índice de massa corporal (IMC) acima de 27.
Parte dos participantes recebeu uma das chamadas “canetas emagrecedoras”, enquanto outro grupo recebeu placebo, uma substância sem efeito ativo utilizada em pesquisas científicas para permitir uma comparação adequada entre os grupos. Nem os pacientes nem os médicos sabiam quem estava recebendo o medicamento ou o placebo, o que aumenta a confiabilidade dos resultados.
Ao final do estudo, os pesquisadores observaram uma redução de 20% no risco de morte cardiovascular, infarto ou AVC entre os pacientes que utilizaram a medicação.
Para o cardiologista Dr. Renan Alvarenga, os dados representam uma mudança importante na forma como essas medicações devem ser encaradas.
“Durante muito tempo, as pessoas associaram essas medicações apenas ao emagrecimento.
Mas hoje sabemos que o impacto vai além da balança.
Estamos falando de redução real de eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC e morte cardiovascular”, explica o especialista.
Segundo o médico, parte desse benefício está relacionada à própria perda de peso, que contribui para a melhora da pressão arterial, do metabolismo e para a redução da sobrecarga sobre o coração.
No entanto, os efeitos das medicações parecem ir além.
“Esses medicamentos também apresentam impacto positivo na inflamação do organismo e na saúde dos vasos sanguíneos. Eles ajudam a melhorar a disfunção endotelial, que é um problema no revestimento interno das artérias e está diretamente ligado à formação de placas e tromboses”, afirma o cardiologista.
Outro fator importante é a redução da chamada gordura visceral, aquela que se acumula ao redor dos órgãos e que está fortemente associada ao aumento do risco cardiovascular.
Apesar dos resultados promissores, o especialista alerta que os medicamentos não devem ser encarados como solução isolada.
“Não existe solução mágica. O tratamento da obesidade e a prevenção de doenças cardiovasculares continuam dependendo de hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, atividade física regular e controle da pressão arterial e do colesterol. Essas medicações são uma ferramenta importante, mas precisam ser utilizadas com indicação médica e de forma responsável”, destaca.
Para o cardiologista, a incorporação dessas terapias representa um avanço importante na prevenção de complicações cardiovasculares em pacientes de maior risco.
“Hoje entendemos que tratar obesidade em pacientes de alto risco também significa tratar o coração. Ignorar evidências que mostram redução de infarto, AVC e morte cardiovascular não faz mais sentido dentro da prática médica atual”, conclui.
Dr. Renan Cintra de Alvarenga Oliveira
Cardiologista formado pela USP
Especialista em Aterosclerose pela USP
Ecocardiografista
CRM-SP 192801 | RQE 11577