Entenda o conceito jurídico de erro médico, os tipos de dano reconhecidos pela Justiça e parâmetros práticos de cálculo da indenização no Brasil
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| Foto: Freepik |
Erro médico é a ocorrência de omissão, negligência, imprudência ou imperícia por parte de um profissional de saúde ou instituição que resulte em dano ao paciente. Em termos práticos, abrange desde diagnósticos equivocados e tratamentos inadequados até falhas cirúrgicas e omissão de procedimentos essenciais.
A caracterização exige prova do nexo causal entre a conduta e o dano — isto é, que a ação ou omissão do agente de saúde foi efetivamente a causa do prejuízo experimentado pelo paciente, orienta Luciana di Berardini, advogada especialista em direito do consumidor, com ênfase em direitos dos pacientes, médicos e usuários de planos de saúde.
Como é tratado o erro médico na prática e na lei?
Do ponto de vista jurídico, a responsabilidade por erro médico costuma ser tratada como responsabilidade civil: há dever de reparar danos materiais (custos médicos, tratamentos, perda de renda) e danos extrapatrimoniais (sofrimento, dor, prejuízo estético).
Em relação ao ente público, aplica-se a responsabilidade objetiva em muitas hipóteses de atendimento estatal; já em casos privados, a verificação de culpa (negligência, imprudência ou imperícia) é frequente.
A jurisprudência brasileira demonstra grande variação na fixação das indenizações, que são calculadas caso a caso com base na extensão do dano, na repercussão na vida da vítima e em critérios de proporcionalidade e razoabilidade.
Tipos de dano comumente reconhecidos
Dano material: despesas médicas passadas e futuras, próteses, medicamentos, e perda de capacidade laborativa.
Dano moral: sofrimento, angústia, humilhação e redução da qualidade de vida.
Dano estético: alterações físicas permanentes que afetam a aparência.
Perda de uma chance: quando o erro reduz a probabilidade de obtenção de um resultado favorável (por exemplo, diagnóstico tardio de câncer). A quantificação dessa perda pode seguir critérios proporcionais ao prejuízo final.
Qual o valor da indenização por um erro médico?
Para oferecer parâmetros reais ao leitor, abaixo estão exemplos inspirados em decisões recentes de tribunais brasileiros, apresentados com mais contexto sobre o tipo de falha, as consequências e a lógica da indenização. Os valores variam conforme cada caso, mas ajudam a entender como a Justiça costuma raciocinar em situações de erro médico.
Caso 1 - Lesão permanente em membro: indenização de R$ 50 mil
Um tribunal estadual julgou o caso de uma paciente submetida a um procedimento ortopédico de rotina após uma fratura simples. Durante o pós-operatório, houve falha grave no monitoramento da circulação periférica, resultando em comprometimento neurológico parcial do membro.
A paciente passou meses com dor crônica e limitação de movimentos. Na decisão, os magistrados destacaram que a equipe ignorou sinais clínicos evidentes de agravamento — registrados inclusive no prontuário — e que a omissão direta levou à sequela.
Assim, foi fixada indenização de aproximadamente R$ 50 mil por danos morais e estéticos, além do reembolso de gastos médicos.
Caso 2 - Sequelas funcionais relevantes: indenização de aproximadamente R$ 100 mil
Em outra decisão, um hospital foi condenado após um erro em um procedimento de administração de medicamentos. O paciente internado para tratar uma infecção recebeu dosagem superior à recomendada, o que desencadeou complicações hepáticas importantes.
A perícia concluiu que a equipe não conferiu corretamente a prescrição antes da aplicação. E a Justiça avaliou que a conduta se enquadrava como negligência e determinou pagamento de cerca de R$ 100 mil, considerando a longa incapacidade temporária do paciente e a necessidade de acompanhamento médico contínuo.
Caso 3 - Óbito por negligência no atendimento emergencial: indenização superior a R$ 500 mil
Situações mais graves, especialmente envolvendo morte, costumam gerar os maiores valores de indenização. Em um caso amplamente divulgado, uma família processou um hospital após a vítima ter sido liberada da emergência sem exames complementares necessários, mesmo apresentando sintomas neurológicos.
Horas depois, sofreu um AVC grave não identificado no atendimento inicial. A Justiça entendeu que houve falha no protocolo de triagem e na avaliação médica, resultando em indenização superior a R$ 500 mil, somando danos morais para cada familiar e danos materiais decorrentes da perda da renda do provedor.
Como esses números são calculados na prática?
A Justiça analisa provas (prontuários, laudos, perícias), a extensão do dano, o grau de culpa e as circunstâncias do caso. Para o dano material, as despesas concretas são somadas (custos passados e estimativa de custos futuros), destaca a especialista Luciana di Berardini.
Para o dano moral, os magistrados aplicam critérios de proporcionalidade que variam por tribunal e pela gravidade do sofrimento; é por isso que os valores oscilam tanto. Em alguns casos, aplica-se a teoria da perda de uma chance para quantificar probabilidades que foram frustradas pelo erro, explica Luciana di Berardini, sócia do Berardini Sociedade de Advogados.
Quando um advogado especializado em erro médico faz a diferença?
Contar com advocacia especializada em responsabilidade médica traz vantagens práticas relevantes:
Avaliação inicial técnica-jurídica: análise dos prontuários e laudos para mapear provas e lacunas.
Contratação e coordenação de perícias médicas independentes: essenciais para comprovar culpa e extensão do dano.
Cálculo detalhado dos danos: levantamento de despesas passadas, projeção de custos futuros e quantificação da perda de capacidade laboral.
Estratégia de processo e negociação: defesa dos interesses em fase extrajudicial (negociações) e judicial, com recursos calibrados para cada instância.
Elementos que, aliando expertise médica e jurídica, aumentam a probabilidade de uma reparação adequada, tanto em termos de reconhecimento dos danos quanto de sua quantificação em valores efetivos.
Como proceder se você ou um familiar foi vítima?
Preserve documentos: solicite e guarde prontuários, receitas, resultados de exames e comprovantes de despesas.
Registre a denúncia no hospital/serviço e, se houver indícios de conduta grave, registre ocorrência junto ao conselho regional de medicina.
Procure orientação jurídica especializada com experiência em casos de erro médico para análise preliminar e definição de estratégia.
Avalie a possibilidade de perícia médica independente para reforçar a prova pericial.
Conclusão
O tema erro médico envolve questões técnicas e humanas complexas: responsabilizar quem erra é também proteger a integridade do sistema de saúde.
As indenizações no Brasil cobrem uma ampla faixa de valores, de acordo com a gravidade do dano e a prova apresentada, variando de pequenas quantias em casos menos graves até centenas de milhares de reais em situações de sequelas permanentes ou morte.
Em todos os casos, uma atuação pericial e jurídica rigorosa, com assistência de um advogado especialista em erro médico e análise minuciosa de prontuários, laudos e todas as evidências, é elemento diferencial para garantir que os direitos da vítima sejam efetivamente reconhecidos e reparados.