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| Foto: Freepik |
Junho de 2024
Um mês após a divulgação do estudo europeu que analisou o papel do conhecimento financeiro no desempenho das pequenas e médias empresas, o debate começa a ganhar densidade fora do circuito acadêmico. Publicado no contexto das discussões sobre competitividade e produtividade na União Europeia, o relatório reforça uma tese incômoda: não há empreendedorismo robusto, nem crescimento sustentável, sem uma base mínima de alfabetização financeira disseminada na sociedade.
Para Alessandra Alves Ferreira, especialista em educação financeira e cofundadora da associação Multiplicando Sonhos, a leitura do estudo europeu oferece um espelho preciso — e pouco lisonjeiro — da realidade brasileira. “A diferença entre Europa e Brasil não está apenas no acesso a crédito ou em marcos regulatórios. Está, sobretudo, no nível médio de compreensão financeira da população. Isso define quem empreende melhor, quem cresce mais e quem quebra primeiro”, afirma.
O relatório europeu parte de um dado estrutural: pequenas e médias empresas representam a espinha dorsal da economia do bloco, mas enfrentam gargalos persistentes de produtividade. Entre os fatores analisados — digitalização, acesso a financiamento, inovação —, a educação financeira aparece como elemento transversal, capaz de amplificar ou limitar todos os demais.
Empreendedores com maior domínio de conceitos financeiros tomam decisões mais racionais sobre endividamento, investimento e expansão. Conseguem avaliar riscos, negociar melhor com bancos e planejar crescimento de longo prazo. Onde esse conhecimento é frágil, o resultado é previsível: empresas subcapitalizadas, decisões de curto prazo e alta mortalidade empresarial.
“Esse não é um debate técnico, é estrutural”, resume Alessandra. “A Europa está dizendo, com dados, que educação financeira é parte da infraestrutura econômica. No Brasil, ainda tratamos isso como um tema secundário ou opcional.”
Ao correlacionar os achados europeus com o contexto brasileiro, Alessandra é direta: o país incentiva o empreendedorismo sem oferecer as ferramentas cognitivas básicas para sustentá-lo. “Criar CNPJ virou política pública. Ensinar a gerir fluxo de caixa, entender juros ou diferenciar faturamento de lucro, não”, critica.
Segundo ela, o analfabetismo financeiro opera como um freio silencioso ao crescimento econômico. Pequenos empreendedores até geram renda, mas dificilmente escalam, inovam ou resistem a choques econômicos. O problema se agrava entre jovens e populações de baixa renda, justamente onde o empreendedorismo é frequentemente apresentado como saída para o desemprego.
“O estudo europeu mostra que conhecimento financeiro reduz risco sistêmico. No Brasil, fazemos o oposto: empurramos pessoas para empreender sem preparo e depois chamamos o fracasso de falta de esforço individual”, diz.
Para Alessandra, combater o analfabetismo financeiro deve ser entendido como política de inclusão social — não como iniciativa isolada de educação. “Educação financeira não é sobre enriquecer. É sobre não desperdiçar oportunidades, não cair em armadilhas e conseguir planejar o futuro”, afirma.
Ela destaca que os impactos vão além do indivíduo. Famílias mais organizadas financeiramente consomem melhor, investem mais em educação e são menos vulneráveis a ciclos de endividamento. No agregado, isso se traduz em maior estabilidade econômica e maior capacidade de crescimento.
“O relatório europeu deixa claro: economias mais resilientes são formadas por cidadãos que entendem minimamente como o dinheiro funciona. Isso vale para um pequeno empresário em Lisboa ou para um jovem da periferia de São Paulo”, afirma.
A leitura que Alessandra faz do estudo é pragmática e pouco indulgente. Para ela, a ausência de uma política estruturada de educação financeira no Brasil tem custo mensurável: menor produtividade, maior informalidade e desperdício de capital humano.
“Sem educação financeira, o empreendedorismo vira loteria. Com educação financeira, vira estratégia de desenvolvimento”, resume. “A Europa está ajustando suas políticas com base nessa constatação. O Brasil ainda debate se o tema merece espaço na escola.”
Na avaliação da especialista, insistir em ignorar essa agenda significa comprometer tanto a inclusão social quanto o crescimento econômico. “Não se combate desigualdade apenas com transferência de renda. Combate-se também com conhecimento. E o conhecimento financeiro é um dos mais negligenciados — e um dos mais decisivos.”
Alessandra Alves Ferreira é especialista em educação financeira, executiva do setor financeiro e cofundadora da associação Multiplicando Sonhos, organização sem fins lucrativos sediada em São Paulo. Com carreira construída em grandes instituições financeiras, atua paralelamente em projetos de impacto social voltados à formação financeira de jovens de escolas públicas e à capacitação de voluntários para atuação educacional.
É pós-graduada pela Fundação Getulio Vargas (FGV), onde teve projeto acadêmico reconhecido entre os melhores de sua turma, e atuação reconhecida sobre educação financeira, empreendedorismo e inclusão econômica. Seu trabalho articula evidências acadêmicas, experiência corporativa e atuação direta em contextos de vulnerabilidade social, com foco na educação financeira como instrumento de mobilidade social e desenvolvimento econômico.