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Quando a máquina erra: o alerta do radiologista brasileiro sobre o uso da IA nas mamografias

25 de Abril de 2023

A inteligência artificial (IA) já ajuda médicos do mundo inteiro a analisar mamografias, apontando áreas suspeitas e acelerando diagnósticos. Mas um novo estudo internacional acendeu um alerta: quando o sistema erra, o médico também pode ser levado a errar junto.

Esse efeito tem nome — “viés de automação” — e foi demonstrado por uma pesquisa publicada em maio de 2023 na revista Radiology. O estudo mostrou que até radiologistas experientes podem ser influenciados pelas sugestões incorretas de um sistema de IA.

Quem explica as implicações práticas disso é o Dr. Astério Jerônimo Dorneles de Dorneles Filho, médico radiologista com mais de 30 anos de experiência e gestor de uma das maiores clínicas de imagem do Oeste catarinense, a Clínica de Imagens Dorneles, em Chapecó.

“A máquina pode ajudar, mas precisa ser bem comandada”

Para o Dr. Astério, a inteligência artificial pode ser uma aliada valiosa, desde que a gestão da clínica e os protocolos de trabalho sejam muito bem planejados.

— A IA pode acelerar e melhorar o diagnóstico, mas se o médico não tiver preparo e regras claras de uso, ela vira um risco. A tecnologia precisa ser conduzida por pessoas treinadas, com responsabilidade e senso crítico, afirma o radiologista.

Ele explica que o estudo mostrou um problema comum: quando o sistema sugere uma classificação errada na mamografia, os médicos — especialmente os menos experientes — tendem a aceitar o erro sem questionar.

— É como um piloto que confia demais no piloto automático. Se não prestar atenção, o avião sai da rota. Na medicina é igual. O radiologista precisa confiar no que vê, não apenas no que o computador mostra, compara Astério.

Um estudo que revela a importância da gestão

No experimento alemão, 27 radiologistas analisaram 50 mamografias com a ajuda de um sistema que às vezes “enganava” os participantes de propósito. O resultado foi claro: todos — inclusive os mais experientes — tiveram seu desempenho afetado pelos erros da máquina.

Para o Dr. Astério, o que o estudo realmente revela é a importância de boas práticas de gestão nas clínicas: treinamento constante, padronização de protocolos e auditorias frequentes.

— Uma clínica bem administrada não depende apenas da boa vontade dos profissionais, mas de regras e rotinas seguras. É preciso ter um protocolo que defina quando a IA entra na leitura, como os resultados são revisados e quem toma a decisão final. Isso garante qualidade e segurança para o paciente, explica.

Ele defende que o médico deve fazer a primeira leitura sozinho, antes de ver a sugestão do sistema, e depois comparar os resultados. Segundo ele, isso reduz o risco de “seguir a máquina” sem pensar.

— A IA deve funcionar como uma segunda opinião, nunca como a primeira, reforça.

O papel da experiência e do trabalho em equipe

Com mais de três décadas de atuação em radiologia, o Dr. Astério é conhecido pela combinação de conhecimento técnico e espírito de liderança. Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Pelotas (RS) e com residência em Radiologia pela Universidade Federal de Santa Maria, ele também foi médico radiologista do Exército Brasileiro e atua há quase vinte anos como gestor e responsável técnico de sua própria clínica.

Na Clínica de Imagens Dorneles, fundada em 2005, coordena uma equipe de mais de vinte profissionais e supervisiona cerca de 60 mil exames por ano — entre mamografias, tomografias, ultrassonografias e densitometrias ósseas.

— Gestão em saúde não é apenas ter bons aparelhos. É criar um ambiente de confiança, com equipe treinada e processos bem definidos. Um erro de interpretação pode mudar a vida de uma paciente. Por isso, o protocolo é o nosso escudo, afirma o médico.

Tecnologia com responsabilidade

O radiologista lembra que a pressa e a falta de treinamento são inimigos da precisão. Segundo ele, clínicas que correm para adotar sistemas de IA sem criar regras claras acabam aumentando os riscos.

— A tecnologia não substitui o olhar humano. Ela precisa de direção, como qualquer ferramenta. Sem gestão, até o melhor sistema pode errar feio, alerta.

Para Astério, o futuro da radiologia está na união entre ciência, gestão e ética:

— A máquina pode ver muito, mas quem entende o que está vendo é o ser humano. E a melhor clínica é aquela que consegue juntar os dois mundos de forma responsável.

O que é o “viés de automação”?
É quando uma pessoa segue cegamente a recomendação de uma máquina ou sistema automatizado, mesmo quando a sugestão está errada. No caso da mamografia, isso pode levar a erros de diagnóstico — tanto falsos positivos quanto falsos negativos.

Como evitar erros?
Com treinamento, protocolos claros e gestão responsável. O médico deve manter o pensamento crítico e não delegar à IA o julgamento final sobre o paciente.

“A inteligência artificial é uma aliada poderosa, mas só funciona bem quando há preparo e gestão. A boa medicina continua dependendo de pessoas.”
— Dr. Astério Jerônimo Dorneles de Dorneles Filho, radiologista.

Quem é o Dr. Astério Dorneles

Dr. Astério Jerônimo Dorneles de Dorneles Filho é médico radiologista e gestor clínico, com 32 anos de experiênciaem diagnóstico por imagem. Graduado pela Universidade Federal de Pelotas (1991) e especializado pela Universidade Federal de Santa Maria, atuou como radiologista do Exército Brasileiro e desde 2005 é fundador e responsável técnico da Clínica de Imagens Dorneles Ltda, em Chapecó (SC).

Membro titular da Sociedade Paulista de Radiologia e Diagnóstico por Imagem e participante da Jornada Paulista de Radiologia (JPR), Dr. Astério é reconhecido por sua dedicação à formação de equipes, qualidade técnica e atendimento humanizado.

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