Montagem da Companhia da Memória tem na cenografia uma passarela sobre o primeiro nível da plateia para que o público experencie a peça e o espaço teatral para além da perspectiva de palco italiano
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“Tchekhov é o profeta da pós-modernidade, em sua obra derradeira há uma
profunda preocupação com a cosmopolítica, com a destruição da natureza,
com o futuro da vida no nosso planeta”.
uy Cortez
A temporada acontece no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, de 18 de janeiro a 2 de março de 2025, com sessões às sextas e sábados, às 20h, e domingos e feriado, às 18h. Também haverá três apresentações às quintas-feiras - nos dias 6 e 13 de fevereiro, às 15h, e no dia 27, às 20h. No dia 13 a apresentação contará com tradução em Libras.
“Tchekhov concebeu a peça para o Teatro de Arte de Moscou e a entregou completa para Stanislávski e Dântchenko ainda em outubro de 1903. Stanislávski não gostou da última cena do segundo ato e pediu para cortá-la. A versão oficialmente publicada acabou por suprimir definitivamente esta cena, e assim, as montagens mundiais da peça encenaram esta versão secundária do texto, e o público, em escala global, talvez nunca tenha tido a oportunidade de assistir à peça como Tchekhov a concebeu originalmente”, revela o diretor Ruy Cortez.
“Na nossa montagem, a cena final suprimida por Stanislávski estará na íntegra. É uma cena de extremo lirismo. Um encontro entre duas pessoas que precisam confessar um ao outro, segredos e angústias que levam dentro de suas almas. E abaixo desta troca de confissões encontra-se também o motivo (leitmotiv) da peça como um todo, o desejo profundo de nós seres humanos de acolhimento e regeneração”, complementa.
A montagem reúne no palco um elenco de 14 atores de cinco distintas gerações. Segundo Cortez, a Companhia da Memória considera que insistir em montagens com esta grande quantidade de atores em cena é intervenção afetiva, poética e de resistência cultural frente ao crescimento dos monólogos dramáticos e a este tipo de experiência teatral que reforça discursos cada vez menos plurais e complexos.
“Assim, optamos por montar o texto em sua integridade, valorizando a diversidade destes estratos sociais, sem cortar nenhuma das personagens ou falas. Dialogar com esta tradição do teatro de repertório é como mesmo apontou o tradutor e diretor teatral Fernando Peixoto, a possibilidade do teatro fazer conviver em cena, diversos estratos de classe, gênero e raça, em virtude do grande número de personagens.
Queremos ocupar o espaço teatral com a teia de afetos de um ensemble contemporâneo, que reflita o compromisso com a inclusão e a representatividade. Nosso objetivo é oferecer ao público uma ampla conexão entre essas presenças, espelhando a experiência coletiva vivida no cotidiano. Por isso a ideia da pista, da rua, das passarelas de Lina Bo Bardi”, finaliza o diretor.
Com essa abordagem, o espetáculo terá duração de 160 minutos, e intervalo de 15 minutos, entre o segundo e terceiro ato
Destaca-se no numeroso elenco da montagem a presença de Sandra Corveloni, atriz vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes em 2008, como a protagonista Liuba. Outro ponto importante é o retorno da atriz Ondina Clais ao Teatro Anchieta, espaço onde atuou inúmeras vezes como atriz do Grupo Macunaíma, fundado pelo encenador Antunes Filho. Ondina dará vida a Charlota, papel feminino que Tchekhov escreveu especialmente para que sua esposa atuasse no Teatro de Arte de Moscou. Ênfase também para a volta do ator e encenador José Rubens Siqueira (78 anos) aos palcos.
A peça retrata um período de profunda transição mundial, do fim do século XIX para o século XX, em que novos paradigmas exigem significativas transformações da sociedade. É tempo de intensa interrogação dos indivíduos e da sociedade sobre quem e o que terá e não terá valor num futuro próximo para a melhora do bem-estar coletivo. Não só em termos de nós humanos, mas planetário. E isto dialoga imediatamente com o nosso tempo, onde enfrentamos uma apocalíptica crise climática, que pode nos levar à extinção completa da vida neste planeta.
É, sobretudo, um texto sobre o amor, o poder e a morte. Sobre o sentido da vida, das nossas existências e do destino de nosso planeta. “Como nós, seres humanos, temos tratado uns aos outros? Como temos tratado o nosso planeta e os outros seres vivos que convivem aqui conosco? O que podemos fazer para melhorar estas relações? ”, indaga Cortez.
O Jardim das Cerejeiras e o Teatro Anchieta
A encenação irá dialogar com o legado e a memória artística do espaço teatral do Sesc Consolação, que carrega dentro de si valor artístico já alçado à categoria do simbólico.
A cenografia criada por André Cortez é uma intervenção no espaço cênico do Anchieta que traz o pensamento arquitetônico da rua, da passarela de Lina Bo Bardi, para ressignificar a memória deste espaço. “Os atores andarão sobre uma plataforma que atravessa o palco do Teatro Anchieta desde o fundo e se projeta como uma rampa sobre todo o primeiro nível da plateia do teatro. Não será a perspectiva clássica ocidental, característica do espaço italiano, mas a perspectiva múltipla, inversa, russa”, diz Cortez
A temporada de “O Jardim das Cerejeiras” é a estreia da Companhia da Memória no Teatro Anchieta. “É um acontecimento muito importante para nós da companhia. É uma sala importantíssima para nós do teatro paulistano. Ali passaram a maior parte das encenações antológicas a que eu e muitos assistiram. Não só as de Antunes, mas de grandes encenadores e companhias teatrais brasileiras e internacionais. Foi sempre uma cena de vanguarda, atenta ao que está acontecendo no mundo. É uma honra e uma responsabilidade enorme para nós”, conclui o diretor.
Sinopse
Uma família de aristocratas decadentes vê sua propriedade e seu imenso jardim das cerejeiras, colocados à venda em um leilão para saldar suas dívidas. Lopakhine, neto e filho de servos que pertenceram a esta propriedade e hoje um homem rico, vê neste leilão uma grande oportunidade.
A montagem da Companhia da Memória para O JARDIM DAS CEREJEIRAS promete também um fato inédito. Certamente no Brasil, mas possivelmente também em âmbito mundial, será uma das primeiras encenações a levar ao palco o texto como foi originalmente concebido por Anton Tchekhov e primeiramente entregue a Stanislávski.
Texto Anton Tchekhov
Tradução - Rubens Figueiredo
Direção, concepção e encenação - Ruy Cortez
Direção de atores - Miriam Rinaldi
Desenho da coreografia - Ondina Clais
Cenografia - André Cortez
Direção de produção - Emerson Mostacco
Figurino - Fabio Namatame
Iluminação - Wagner Antônio
Composição original - Thomas Rohrer
Sonoplastia e design sonoro - Aline Meyer
Elenco
Liuba - Sandra Corveloni
Gáiev - Mario Borges
Píschik - Walter Breda
Charlotta - Ondina Clais
Firs - José Rubens Siqueira / Luiz Amorim
Ánia - Beatriz Napoleão
Pétia - João Vasco
Vária - Gabrielle Lopes
Lopakhine - Caio Juliano
Duniacha - Ana Hartmann
Epikhódov - Daniel Warren
Iacha - Conrado Costa
A Chefa da Estação - Clodd Dias
O Andarilho, o Funcionário dos correios e a Criada - Felipe Samorano
Ficha Técnica
Cenotecnia - Wanderley Cenografia
Modelagem - Juliano Lopes
Costura - Fernando Reinert e Lenilda Moura
Alfaiate - Agenor Domingues
Preparação mágicas - Ricardo Malerbi
Equipe de produção - Paulo Del Castro
Assistente de direção - Felipe Samorano
Assistente de cenografia - Camila Refinetti
Assistência de iluminação e Operador de Luz - Denis Kageyama
Programação de luz - Denis Kageyama e Léo Sousa
Equipe de luz - Denis Kageyama, Léo Sousa e Marina Nogueira
Operador de som e microfones - Anderson Franco
Assistente e produtor de figurino - Adilson de Faria e Carol Zillig
Voz Mestra - Luizinha de Pirapemas, Maranhão
Camareira - Andréa Lima
Contrarregragem - Eric Estevan e Wesley Jeferson
Assessoria de imprensa -Adriana Monteiro
Mídias sociais - Lead Performance
Making Off - Marcelo Bacchin
Design gráfico - Laerte Késsimos
Ilustrações - Ulysses Bôscolo
Flores em Papel - Mira Haar
Edição dos textos programa - Davi Giordano
Foto - Ale Catan e Klaus Mitteldorf
Registro videográfico - Jagun Filmes
Produção - Companhia da Memória e Mostacco Produções
Realização Sesc
Expansão – O Jardim das Cerejeiras
Além das apresentações no Teatro, o Sesc Consolação promove atividades artísticas e pedagógicas no Expansão CPT, que consiste em ações formativas com o intuito de ampliar reflexões e diálogos disparadores de processos criativos de obras cênicas específicas, por meio do compartilhamento teórico e prático de pesquisas, técnicas e saberes plurais. A Expansão de “O Jardim das Cerejeiras” inclui a atividade “Desmontagem”, com a demonstração da construção de cenas do espetáculo, e o curso “A experiência do vivo Stanislavskiana", com Ruy Cortez, sobre a prática e a teoria do Sistema criado pelo ator e encenador-diretor-pedagogo russo Constantin Stanislavski. Veja mais informações sobre as ações formativas no serviço ao final do texto.
Companhia da Memória
A transposição para a cena de obras literárias, a recriação de clássicos da dramaturgia, a criação e encenação da dramaturgia brasileira contemporânea, a investigação da metodologia do teatro psicofísico para o trabalho do ator e a pesquisa de uma encenação transdisciplinar têm sido algumas das marcas do trabalho da companhia ao longo de dezoito anos de existência.
Em suas três obras iniciais, a Companhia da Memória dedicou-se ao estudo da linhagem patriarcal, explorada em “Rosa de Vidro” (2007), como força castradora em “Nomes do Pai” (2010) e interrompida por meio do ato parricida nos três espetáculos que compunham a obra “Karamázov” (2014).
Em 2016, a Companhia inicia a Pentalogia do Feminino, projeto artístico concebido por Ondina Clais e Ruy Cortez. Neste conjunto de espetáculos, a Companhia se volta à investigação da linhagem matriarcal e dos arquétipos femininos a partir de cinco obras com temas autônomos, que se desdobram e se entrelaçam sob a perspectiva do feminino.
As Três Irmãs e A Semente da Romã, díptico teatral e montagem mais recente (2024), integra a Pentalogia. Antes dele, vieram à luz o monólogo “Katierina Ivânovna - K.I.” (2017), estrelado por Ondina Clais e baseado na personagem do romance “Crime e Castigo”; a peça “Punk Rock” (2018), que trata do bullying e da violência nas escolas, escrita pelo dramaturgo contemporâneo inglês Simon Stephens; e “Réquiem para o Desejo” (2018), uma recriação da obra “Um Bonde Chamado Desejo” de Tennessee Williams, com dramaturgia inédita de Alexandre Dal Farra.
SERVIÇO
JARDIM DAS CEREJEIRAS
Temporada: De 18 de janeiro a 2 de março.
Sextas e sábados, 20h. Domingos e feriado, 18h.
Sessões dias 6 e 13 de fevereiro. Quintas, 15h. Dia 27 de fevereiro. Quinta, 20h.
Sessão com acessibilidade em Libras: dia 13 de fevereiro
Local: Teatro Anchieta – Sesc Consolação (280 lugares)
– R. Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque
Ingresso: R$70 (inteira), R$35 (meia-entrada) e R$21 (credencial plena)
Venda de ingressos on-line pelo link a partir do dia 7 de janeiro em centralrelacionamento.sescsp.
Duração: 180 min (intervalo de 15 min)
Classificação etária indicativa: 16 anos
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.
EXPANSÃO – O JARDIM DAS CEREJEIRAS
Desmontagem
Com participação da equipe criativa e do elenco do espetáculo. A formativa tem como proposta apresentar possibilidades de olhares de cenas por meio da desconstrução de breves trechos do espetáculo. Com Cia da Memória.
Gratuito. Retirada de ingressos 1h antes
Classificação: 16 anos
Dia 08 de fevereiro de 2025. Sábado, das 14h às 15h30 – Teatro Anchieta
Workshop com Ruy Cortez – “A experiência do vivo Stanislavskiana”
O foco do workshop é a prática e a teoria do Sistema criado pelo grande ator e encenador-diretor-pedagogo russo Constantin Stanislavski. O workshop é voltado para profissionais das áreas de atuação e direção, e nele serão abordados os principais conceitos da metodologia eixo do Teatro de Arte de Moscou.
Inscrições: 11 a 14 de fevereiro de 2025, pelo app e Central de Relacionamentos.
Valor: R$50 (inteira), R$25 (meia-entrada) e R$ 15 (credencial plena)
Classificação 18 anos. Vagas limitadas.
Dias 15 e 16 de fevereiro de 2025. Sábado e domingo, das 15h às 18h - espaço CPT