Palestrante, mentora, agricultora e escritora, Ana Borzatto fala sobre identidade, protagonismo feminino, negócios familiares e a importância de reconhecer a própria história para construir um legado
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| Foto: Divulgação |
Antes de se tornar palestrante, mentora e escritora, Ana Borzatto construiu sua trajetória em espaços que, à primeira vista, poderiam parecer distantes do palco. A agricultura, a maternidade e as experiências como professora e empresária ajudaram a formar a mulher que hoje aborda temas como comunicação, liderança, posicionamento e sucessão.
Filha do coração de Luiz Borzatto e Antônia Borzatto, Ana cresceu em um ambiente marcado pelo contato com a terra e pelas responsabilidades da vida em família.
"Minha trajetória começou muito antes de eu entender que estava construindo uma carreira. Cresci aprendendo que a terra exige presença, responsabilidade e coragem", conta.
Ao longo dos anos, os diferentes papéis que assumiu também trouxeram questionamentos sobre autoestima, identidade e pertencimento. Encontrar espaço para a própria voz exigiu reconhecer essas experiências como parte de sua formação.
"Cada experiência contribuiu para a mulher e a profissional que sou hoje. Eu não construí minha história apagando o passado, mas honrando minhas raízes e decidindo o que faria com tudo aquilo que vivi", afirma.
Quando a própria história começa a servir de caminho para outras pessoas
A aproximação com as palestras e mentorias aconteceu quando Ana percebeu a identificação que seus relatos despertavam. Assuntos que faziam parte de sua vida passaram a abrir conversas com pessoas que enfrentavam dúvidas semelhantes, ainda que em contextos diferentes.
"Percebi isso quando entendi que aquilo que um dia foi minha dor poderia se transformar em direção para outras pessoas. Quando eu falava sobre pertencimento, autoestima, agricultura, liderança, sucessão, comunicação e posicionamento, outras pessoas também começavam a olhar para suas próprias histórias", explica.
A partir dessa troca, Ana encontrou diferentes maneiras de compartilhar o que havia aprendido. Cada formato passou a oferecer uma possibilidade de contato com o público, desde a reflexão coletiva até o acompanhamento mais próximo.
"A palestra me deu a possibilidade de alcançar muitas pessoas; a mentoria me permitiu caminhar mais perto de cada uma delas; e a escrita transformou experiências em palavras capazes de chegar a lugares onde talvez a minha voz ainda não tivesse chegado", conta.
Posicionamento não começa nas redes sociais
Em um cenário profissional marcado pela exposição, Ana questiona a associação entre posicionamento e necessidade de aparecer constantemente. Antes de escolher canais, formatos ou frequência de publicação, ela considera necessário compreender o que se deseja comunicar e quais experiências sustentam essa mensagem.
"Ter um bom posicionamento profissional significa saber quem você é, o que representa, qual valor entrega e como comunicar tudo isso com clareza e assertividade. Não se trata de aparecer por aparecer, nem de criar um personagem para as redes sociais", explica.
Nesse processo, buscar referências pode contribuir para o aprendizado. A dificuldade surge quando a inspiração dá lugar à reprodução de discursos e comportamentos que não correspondem à realidade de quem os utiliza. "A pessoa observa o concorrente, copia a linguagem de alguém, segue tendências e, nesse processo, acaba perdendo a própria identidade", observa.
Para Ana, escolher o que comunicar também exige discernimento. Nem toda situação pede exposição, assim como nem toda conversa se resolve falando mais. "Posicionamento também envolve saber ouvir, silenciar, estabelecer limites e escolher com consciência o que deve ser comunicado", afirma.
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| Foto: Divulgação |
Competência e reconhecimento do próprio valor
Ao trabalhar com comunicação, Ana encontra profissionais preparados que têm dificuldade para apresentar suas entregas ou defender o espaço que conquistaram. O conhecimento técnico, por si só, nem sempre oferece segurança para lidar com a visibilidade.
"Existem pessoas extremamente preparadas que, quando precisam falar sobre si mesmas, diminuem suas conquistas, têm medo de parecer arrogantes ou esperam que alguém reconheça seu valor espontaneamente", explica.
Ela reconhece essa dificuldade na própria trajetória. Antes de falar publicamente sobre suas experiências, precisou rever a maneira como as enxergava. "Eu mesma precisei aprender a me enxergar antes de querer que o mundo me enxergasse", conta.
Por isso, seu trabalho não se limita a ensinar recursos de expressão. Também envolve olhar para o caminho percorrido e identificar conhecimentos e contribuições que, muitas vezes, a própria pessoa trata como algo sem importância. "Não basta ter valor. É preciso reconhecê-lo, sustentá-lo e aprender a comunicá-lo", afirma Ana Borzatto.
Comunicação consciente nas relações profissionais
A maneira de se comunicar aparece em situações concretas do cotidiano: ao negociar, conduzir uma conversa difícil, orientar uma equipe ou explicar uma decisão. Para Ana, esses momentos revelam que a comunicação vai além da imagem pública e interfere na qualidade das relações.
"A comunicação transforma a maneira como somos percebidos, mas, antes disso, transforma a maneira como nos colocamos diante das pessoas. Quando comunicamos com clareza, reduzimos ruídos, estabelecemos limites, fortalecemos relacionamentos, negociamos melhor e transmitimos mais confiança", explica.
Essa perspectiva exige atenção tanto à mensagem quanto à forma de conduzir a conversa. Saber o que se espera, ouvir o outro e sustentar acordos são cuidados que ajudam a evitar desgastes e tornam as decisões mais compreensíveis para todos os envolvidos.
Os desafios da liderança nos negócios familiares
A experiência como agricultora e empresária aproximou Ana dos desafios de liderar em ambientes nos quais relações pessoais e profissionais convivem diariamente. Neles, uma decisão pode ter consequências que ultrapassam a rotina de trabalho.
"Dentro de uma empresa familiar, não lidamos apenas com cargos, processos e metas. Lidamos também com história, sentimentos, expectativas, gerações e vínculos familiares", explica.
Nesse contexto, divergências podem acompanhar a família para além do expediente, atravessando almoços, encontros e relações entre pais e filhos. Conduzir mudanças exige cuidado para que os motivos sejam compreendidos e para que as pessoas tenham espaço para participar das conversas.
"Um líder que não sabe se comunicar pode ter uma excelente estratégia e, ainda assim, perder a equipe ou criar conflitos dentro da própria família", alerta.
Ana também distingue a autoridade de um cargo da confiança construída no dia a dia. Para ela, a liderança se revela na disposição de ouvir, assumir responsabilidades e permitir o desenvolvimento de outras pessoas. "Liderança não é falar mais alto, ter sempre razão ou centralizar tudo em si. É criar condições para que outras pessoas também cresçam, contribuam e assumam responsabilidades", afirma.
A agricultura e o aprendizado sobre continuidade
Boa parte da visão de Ana sobre gestão nasceu no campo. A convivência com ciclos, riscos e imprevistos mostrou que o trabalho exige planejamento, mas também capacidade de adaptação diante do que não pode ser controlado.
"A terra ensina que existe tempo para plantar, cuidar e colher, mas também mostra que nenhuma colheita acontece apenas pela vontade de quem plantou", conta.
Ao vivenciar a sucessão, essas experiências ganharam outra dimensão. Além de preservar a produção e organizar o negócio, tornou-se necessário pensar nas pessoas que dariam continuidade ao trabalho da família.
"Patrimônio pode ser transferido por documentos. O legado, porém, precisa ser transmitido por valores, exemplo e preparação", explica.
Essa distinção orienta sua defesa de uma formação construída na convivência entre gerações. "Sucessão não acontece no dia em que alguém entrega uma propriedade ou uma empresa. Ela começa muito antes, na formação das pessoas, no nascimento e no aprendizado diário", afirma.
Sucessão não deve esperar uma urgência
Embora seja frequentemente associada a grandes empresas e propriedades, Ana considera que a discussão sucessória também precisa alcançar negócios menores. A questão está presente sempre que há responsabilidades, conhecimentos e uma atividade que se deseja preservar.
"No campo, muitas famílias passam décadas formando patrimônio, conhecimento e reputação, mas deixam essa conversa para quando já existe uma urgência", observa.
O adiamento pode concentrar decisões delicadas em um momento de pressão. Conversar com antecedência permite conhecer expectativas, avaliar interesses e preparar quem poderá assumir novas funções, respeitando as necessidades do negócio e as relações familiares.
"A sucessão precisa ser tratada como um processo de preparação, não apenas como uma divisão de bens", explica.
Nesse caminho, a liderança também é colocada à prova. Abrir espaço para a próxima geração envolve compartilhar conhecimento e aceitar que a continuidade poderá trazer novas formas de trabalhar. "Quem apenas comanda quer ser indispensável; quem verdadeiramente lidera prepara outros para que o legado continue sem ele", destaca.
Mulheres sempre estiveram no agro
Ao abordar o protagonismo feminino, Ana reconhece os avanços conquistados, mas observa que as mulheres também enfrentam o desafio de conciliar diferentes responsabilidades e, em alguns ambientes, ainda precisam demonstrar sua competência repetidas vezes para conquistar reconhecimento.
No campo, essa realidade aparece em contribuições que, durante muito tempo, fizeram parte da rotina das propriedades sem receber a devida valorização. Mulheres participavam da produção e da gestão, mas nem sempre eram reconhecidas como integrantes do negócio.
"Durante muito tempo, mulheres trabalharam dentro da porteira, participaram das decisões, cuidaram da família, das pessoas e do negócio, mas permaneceram invisíveis, ou eram classificadas como ‘eu ajudo’, não como pertencentes", explica.
Essa reflexão está presente na palestra De que lado da porteira você está?, em que Ana convida mulheres a observarem as responsabilidades que já assumem e o valor do trabalho que realizam. A proposta é estimular uma participação mais consciente, sem exigir que adotem uma personalidade diferente para conquistar respeito.
"A mulher não precisa deixar de ser quem é para liderar. Precisa reconhecer a força que talvez já exerça há anos sem ter dado nome a ela", destaca.
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Coragem para reconhecer e reconstruir a própria história
As mudanças na trajetória de Ana também exigiram disposição para enfrentar inseguranças. Em diferentes momentos, a pergunta “Quem é você?” a levou a rever a maneira como se definia e a considerar possibilidades que ainda não havia explorado.
"Coragem não significa ausência de medo. Coragem é não permitir que o medo tome todas as decisões por você", afirma.
Para ela, recomeçar não exigiu romper com tudo o que havia vivido. A compreensão do passado ajudou a fazer novas escolhas e a encontrar outras formas de atuar. "Recomeçar também é uma forma de honrar a própria trajetória. Reinventar-se é levar a nossa raiz conosco, mas ter coragem de produzir novos frutos", explica.
Três obras, diferentes dimensões de uma trajetória
A escrita deu espaço para aprofundar temas que acompanham Ana desde a infância. Em Do Coração à Sucessão, ela parte da experiência como criança adotiva, filha do coração, para abordar o pertencimento, a família e seu lugar na agricultura.
"É muito mais do que um livro sobre sucessão rural. É parte da minha própria vida e da forma como encontrei meu lugar dentro da minha história", explica.
Sua participação nas coautorias Mulheres do Agro e O Despertar Delas ampliou essa caminhada. Na primeira, sua história se soma às de outras mulheres do campo, dando visibilidade à diversidade de experiências femininas no setor. Na segunda, compartilha o despertar para o alcance da própria voz e para a possibilidade de contribuir com outras pessoas por meio dela.
As obras se relacionam, mas abordam dimensões distintas de sua trajetória: a construção do pertencimento, o reconhecimento coletivo e a descoberta de novas formas de atuação.
"A escrita me ensinou que uma história, quando encontra coragem para ser contada, deixa de pertencer somente a quem a viveu e pode se transformar em caminho para quem a lê", afirma.
A proposta da Mentoria Raiz Forte
Na Mentoria Raiz Forte, Ana reúne reflexões sobre identidade, comunicação e posicionamento. O ponto de partida é compreender como as experiências de cada pessoa influenciam suas escolhas e sua maneira de ocupar espaços.
O acompanhamento considera tanto o reconhecimento de quem a pessoa é hoje quanto aquilo que deseja desenvolver. "Não quero transformar ninguém em outra pessoa, mas ajudar cada um a retirar aquilo que impediu o reconhecimento da própria força", explica.
Uma das mensagens centrais desse trabalho traduz a relação que Ana estabelece entre autoconhecimento e capacidade de enfrentar dificuldades: "Raiz forte não significa nunca enfrentar tempestades; significa saber quem você é quando elas chegam."
Um legado que vai além dos títulos
Ao falar sobre o que deseja deixar, Ana também se apresenta pelas relações que compõem sua vida: filha de Luiz e Antônia Borzatto, esposa de Zezé, mãe de anjos, de Ana Catarina e Maria Antonia. Esses vínculos acompanham sua atuação como agricultora, palestrante, mentora e escritora e ajudam a explicar os temas aos quais escolheu se dedicar.
"Quando minha trajetória for lembrada, quero que as pessoas reconheçam principalmente isso: uma mulher que conheceu suas raízes, encontrou sua voz e decidiu usá-la para despertar outras pessoas", afirma.
Mais do que o reconhecimento de uma carreira, ela deseja que seu trabalho tenha continuidade na vida de quem encontra suas palavras, seja em uma palestra, em uma mentoria ou na leitura de um livro.
"Títulos ficam no currículo, patrimônios mudam de mãos e os aplausos terminam. Mas aquilo que você desperta na vida de alguém pode atravessar gerações", afirma Ana.
Para acompanhar o trabalho de Ana Borzatto e seus conteúdos sobre comunicação, posicionamento, liderança, sucessão, agricultura e a Mentoria Raiz Forte, acesse o perfil no Instagram: @anaborzatto.