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A inteligência artificial não está substituindo pessoas; está diminuindo a distância

4 de Setembro de 2026

Por Cleber Barbosa Rita

Há algum tempo venho observando a maneira como as pessoas falam sobre inteligência artificial e uma pergunta aparece praticamente em todas as conversas: a inteligência artificial vai substituir o ser humano?

É uma preocupação compreensível. Toda vez que surge uma tecnologia capaz de fazer em poucos minutos algo que antes exigia horas de trabalho, é natural imaginar o impacto que isso terá sobre profissões, empresas e, principalmente, sobre o nosso próprio futuro. Eu também penso sobre isso. Trabalho com tecnologia e marketing digital há muitos anos e aprendi que não adianta ignorar uma transformação simplesmente porque ainda não conseguimos enxergar com clareza todas as consequências que ela poderá trazer.

Só que, quanto mais utilizo inteligência artificial e observo o que está acontecendo, mais me convenço de que estamos concentrando a discussão na pergunta errada.

Não tenho dúvida de que algumas funções serão substituídas. Outras serão profundamente modificadas e novas profissões deverão surgir, como aconteceu em outros momentos de transformação tecnológica. Mas acredito que existe algo ainda maior acontecendo e que, curiosamente, recebe muito menos atenção: a inteligência artificial está diminuindo a distância entre quem sabe e quem não sabe fazer.

Para entender o que quero dizer, basta pensar em como trabalhávamos até muito pouco tempo atrás. Uma pessoa poderia ter uma excelente ideia para um sistema, por exemplo, mas, se não soubesse programar, havia uma barreira enorme entre aquilo que estava imaginando e a possibilidade de transformar a ideia em algo concreto. O mesmo acontecia com alguém que conhecia profundamente determinado mercado, mas não sabia analisar uma grande quantidade de dados, ou com um pequeno empresário que precisava produzir uma apresentação, organizar uma estratégia, estudar seus concorrentes ou desenvolver alguma atividade para a qual não possuía conhecimento técnico.

Nessas situações, a pessoa precisava aprender a fazer, contratar alguém que soubesse ou simplesmente desistir da ideia.

A inteligência artificial começou a mexer justamente nessa distância entre a intenção e a execução. E considero importante dizer “diminuir”, porque ela não eliminou essa distância. Uma pessoa não se torna programadora simplesmente porque conseguiu criar algumas linhas de código utilizando uma IA, da mesma forma que não se transforma em designer porque gerou uma imagem ou em especialista em marketing porque pediu uma estratégia a uma ferramenta.

Existe uma diferença enorme entre conseguir executar determinada tarefa e realmente compreender aquilo que está sendo feito. Na minha opinião, essa diferença será cada vez mais importante.

Quanto mais utilizo inteligência artificial, menos acredito naquela ideia de que o conhecimento perderá valor. Na verdade, penso exatamente o contrário. Quanto mais poderosa se torna a ferramenta, mais importante passa a ser a capacidade humana de avaliar o que ela entrega.

Se eu conheço profundamente determinado assunto, consigo olhar para uma resposta e perceber que alguma coisa não faz sentido. Posso questionar, acrescentar contexto, mudar a direção, comparar possibilidades e, principalmente, discordar. Quem não possui conhecimento suficiente corre um risco diferente: receber uma resposta muito bem construída, aparentemente convincente, e acreditar que ela está correta simplesmente porque foi apresentada daquela maneira.

Isso me leva a uma reflexão que considero central nessa discussão. A inteligência artificial pode diminuir rapidamente a distância entre quem sabe e quem não sabe fazer, mas ela não diminui necessariamente a distância entre quem sabe e quem não sabe pensar.

E talvez seja justamente por isso que algumas habilidades profundamente humanas se tornarão ainda mais importantes.

Durante muito tempo, ter acesso à informação significava possuir uma vantagem competitiva enorme. Quem tinha informação tinha poder. A internet mudou radicalmente essa lógica e os mecanismos de busca ampliaram ainda mais o acesso ao conhecimento. Agora estamos vivendo uma nova etapa. Não precisamos apenas encontrar uma informação; podemos conversar com ela, pedir explicações, comparar cenários, testar hipóteses e aprofundar um assunto em segundos.

Nesse ambiente, saber fazer boas perguntas começa a ter um valor extraordinário.

E não estou falando de decorar comandos ou de aprender a escrever o chamado “prompt perfeito”. Isso é a parte menos interessante dessa história. Estou falando da capacidade de entender qual é o verdadeiro problema, perceber aquilo que não está evidente, questionar uma conclusão, conectar informações aparentemente distantes e formular perguntas que nos levem a lugares que ainda não havíamos considerado.

A inteligência artificial consegue produzir uma quantidade impressionante de respostas. O problema é que alguém ainda precisa decidir quais perguntas valem a pena ser feitas.

Quando olho para o mercado de trabalho por esse ângulo, vejo uma transformação muito mais complexa do que simplesmente uma disputa entre pessoas e máquinas. Imagine dois profissionais com experiência e conhecimento semelhantes. Um deles continua trabalhando exatamente da maneira como sempre trabalhou. O outro passa a utilizar inteligência artificial para pesquisar, organizar informações, analisar possibilidades, automatizar atividades repetitivas, testar ideias e ganhar velocidade em determinadas partes do seu trabalho.

Depois de algum tempo, esses dois profissionais provavelmente não terão mais a mesma capacidade de execução, embora possam continuar tendo uma formação muito parecida.

Isso não acontece porque aquele que utiliza IA se tornou mais inteligente. Acontece porque ele passou a trabalhar com uma ferramenta capaz de ampliar determinadas capacidades que já possuía.

É por isso que tenho dificuldade quando ouço que o futuro será uma disputa entre o homem e a inteligência artificial. Acho essa visão limitada. Em muitas áreas, a diferença mais perceptível poderá acontecer entre profissionais que aprenderam a utilizar inteligência artificial para ampliar aquilo que sabem fazer e profissionais que decidiram continuar trabalhando como se essa tecnologia não existisse.

Há ainda outro aspecto que considero fascinante e que talvez produza consequências econômicas enormes: capacidades que antes estavam restritas a grandes empresas e profissionais altamente especializados estão chegando às mãos de pequenos empresários, profissionais independentes, estudantes e pessoas que simplesmente possuem uma ideia e vontade de realizá-la.

Um pequeno empreendedor hoje consegue pesquisar um mercado, organizar informações, analisar dados, estudar concorrentes, estruturar um projeto e automatizar determinadas tarefas com recursos que seriam praticamente inacessíveis para ele alguns anos atrás. Isso não significa que ele fará tudo sozinho ou que não precisará mais de especialistas. Significa apenas que o ponto de partida mudou.

E quando o ponto de partida muda para milhões de pessoas ao mesmo tempo, alguma coisa importante está acontecendo.

Ao mesmo tempo, existe um lado dessa transformação que me preocupa. A inteligência artificial tornou muito fácil produzir coisas aparentemente boas. É possível gerar um texto razoável, uma imagem bonita, uma apresentação organizada ou uma estratégia que, numa primeira leitura, parece fazer sentido. O problema é que a facilidade de produzir também aumenta enormemente a quantidade de coisas medianas que serão produzidas.

Talvez tenhamos cada vez mais textos corretos e cada vez menos textos que realmente tenham algo a dizer. Mais apresentações bonitas e menos ideias relevantes. Mais respostas disponíveis e, paradoxalmente, mais dificuldade para separar aquilo que possui valor daquilo que apenas parece possuir.

Por isso, não acredito que criatividade, experiência, repertório e pensamento crítico estejam perdendo importância. Acho que acontecerá justamente o contrário. Quando qualquer pessoa puder produzir alguma coisa tecnicamente aceitável apertando poucos botões, o diferencial estará cada vez menos no simples ato de produzir e cada vez mais naquilo que existe por trás da produção.

A tecnologia pode ajudar alguém a escrever, mas não resolve sozinha a questão mais importante: o que essa pessoa tem para dizer? Pode ajudar a analisar milhares de dados, mas alguém precisa compreender o que aqueles dados representam. Pode apresentar dezenas de caminhos para um problema, mas continuaremos precisando decidir qual deles faz sentido para a realidade em que estamos inseridos.

Isso não significa romantizar o impacto da inteligência artificial. Algumas funções serão substituídas e algumas pessoas terão dificuldade para se adaptar. Empresas vão descobrir que determinadas atividades podem ser realizadas de maneira muito mais eficiente e isso terá consequências reais sobre o mercado de trabalho. Seria irresponsável dizer que nada disso acontecerá.

O que questiono é a ideia de resumir uma transformação desse tamanho à possibilidade de perdermos nossos empregos para uma máquina.

A história pode ser muito maior.

Talvez estejamos diante de uma das maiores ampliações de capacidade individual que já experimentamos. Pessoas que até pouco tempo atrás eram limitadas por falta de recursos técnicos começam a conseguir transformar ideias em execução. Pequenas empresas passam a acessar recursos que antes dependiam de estruturas muito maiores. Profissionais conseguem realizar em horas determinadas tarefas que consumiriam dias.

Ainda não sabemos exatamente onde isso vai nos levar, e desconfio de qualquer pessoa que diga saber com certeza como será o mercado daqui a dez anos. Estamos no meio da transformação, não no final dela.

Já vi mudanças importantes acontecerem no ambiente digital ao longo da minha trajetória profissional. Vi empresas demorarem para entender a internet, depois demorarem para compreender os mecanismos de busca, as redes sociais, os smartphones e tantas outras mudanças que, algum tempo depois, passaram a parecer óbvias.

Existe um padrão que sempre me chamou a atenção: quando uma tecnologia realmente transforma a sociedade, chega um momento em que deixamos de falar sobre ela como novidade. Ela simplesmente passa a fazer parte da vida.

Ninguém se apresenta hoje dizendo que é “um profissional que usa internet”. Seria estranho. A internet está incorporada ao trabalho. Da mesma forma, acredito que chegará o momento em que dizer que alguém “trabalha usando inteligência artificial” também parecerá desnecessário. Ela simplesmente estará presente em inúmeras atividades.

Só que ainda não chegamos a esse ponto.

Estamos naquele período em que a tecnologia já está disponível, mas a sociedade ainda está aprendendo o que fazer com ela. Algumas pessoas utilizam inteligência artificial apenas para escrever uma mensagem ou fazer uma pergunta simples. Outras já estão reorganizando processos inteiros de empresas. Há quem tenha medo, quem esteja encantado, quem esteja exagerando suas possibilidades e quem ainda não tenha prestado atenção no que está acontecendo.

É justamente esse período de transição que considero tão importante.

Quando alguém me pergunta se deveria aprender inteligência artificial, não respondo que sim porque “IA é o futuro”. Essa frase já se tornou quase vazia. Minha resposta é outra: vale a pena aprender porque a maneira como transformamos conhecimento em execução está mudando diante dos nossos olhos.

Isso, por si só, já seria motivo suficiente para prestarmos atenção.

Por essa razão, quando volto à pergunta que iniciou este artigo — “a inteligência artificial vai substituir as pessoas?” — continuo achando que ela merece ser feita, mas não deveria ser a única.

Há uma pergunta que, pessoalmente, me interessa muito mais: o que uma pessoa será capaz de fazer quando aprender a utilizar bem uma capacidade que até pouco tempo atrás ela simplesmente não possuía?

Acredito que ainda estamos muito no começo dessa resposta.

A inteligência artificial está diminuindo a distância entre quem sabe e quem não sabe fazer. Mas existe uma distância que continuará sendo nossa responsabilidade percorrer: aquela que separa ter acesso a uma ferramenta de realmente aprender, pensar, questionar e saber o que fazer com ela.

No final das contas, talvez a grande transformação da inteligência artificial não seja tornar as máquinas mais parecidas conosco.

Talvez seja descobrir o quanto nós mesmos podemos fazer quando aprendemos a trabalhar com elas.

Sobre o autor:

Cleber Barbosa Rita

Especialista em Inteligência Artificial Aplicada, Marketing Digital, Growth Hacking e Tecnologia, com mais de 20 anos de atuação no mercado digital.

cleberbarbosa.com.br

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