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A saúde mental do funcionário é responsabilidade da empresa?

21 de Agosto de 2026

Por Marina Machado

Você prefere saber?

Vou te contar, mas você vai ter que tomar algumas providências. O bom é que, depois de algum tempo, você estará muito melhor, mas tem um problema: depende de você. Você confia em você?

Só essa abertura já merece que você gaste um tempo para pensar, porque nada acima é simples ou banal. Primeiro você precisa ser honesto/a com você. Depois tem o desconforto de ter que sair da posição de conforto e começar a mexer em lugares que você não quer nem confirmar que precisam de reparos.

Então vamos lá.

Essa história de que a saúde mental de um funcionário é responsabilidade da empresa pode estar fazendo um desserviço tanto para a empresa quanto para o funcionário. Primeiro porque não existe “empresa”. Existem pessoas em seus cargos conduzindo umas às outras e, por vezes, oprimindo, abusando do poder ou usando esse poder para fins que fazem bem para o próprio ego e para o próprio bolso. Pessoas. Pessoas essas que também podem precisar de uma boa terapia.

Da mesma forma, não existem “funcionários”. Existem seres humanos alocados para fazer determinadas tarefas e pagos por isso. Podem estar em funções erradas, em desacordo com suas essências, com falta de preparo emocional, com uma penca de problemas na vida pessoal, uma porrada de contas para pagar e muita ansiedade nesses tempos digitais. Pessoas de ponta a ponta, que se encontram presencialmente ou online para se desafiar nas tarefas daquele dia.

Por favor, reflita sobre isso. Você é um ser humano, seu chefe ou sua chefe também. E as escolhas que fazemos são nossa responsabilidade. Sentir raiva, frustração, medo ou irritação nem sempre é uma escolha, mas o que fazemos com isso é nossa responsabilidade. Ser agressivo, egoísta, antipático, acolhedor, compreensivo ou humano aparece nas nossas atitudes diárias. Algumas delas têm relação com o nosso caráter, outras com o nosso humor, com a nossa história e com aquilo que ainda não aprendemos a administrar em nós mesmos. Todas essas escolhas, porém, passam pela nossa autoconsciência e pela nossa autorresponsabilidade.

Autorresponsabilidade não significa dizer que tudo o que aconteceu com você foi sua responsabilidade. Há coisas que nos acontecem sobre as quais não tivemos qualquer escolha. A questão é outra: o que eu faço a partir daqui? Um estudo publicado em Clinical Psychology & Psychotherapy encontrou justamente uma diferença entre atribuir responsabilidade pela causa do problema e responsabilidade pela solução. A responsabilidade pela solução esteve relacionada aos resultados do processo terapêutico.

Te avisei que talvez fosse dolorido querer saber.

O que você vai fazer com isso?

Vai continuar cerrando o punho de raiva e tendo reações acaloradas porque a culpa é do sistema e porque “jogar” para o funcionário a própria parcela de responsabilidade na convivência humana é apenas uma forma de facilitar a vida dos poderosos? Ou vai refletir um pouco sobre tudo isso e talvez entender que assumir responsabilidade não significa assumir culpa e que reconhecer a responsabilidade individual não absolve quem detém poder?

Essa distinção é fundamental.

Existem relações de poder dentro das empresas e elas não podem ser ignoradas. Um líder tem responsabilidades diferentes das de quem responde a ele. Uma organização precisa estabelecer regras, limites, condições adequadas de trabalho e mecanismos para impedir abusos. Autorresponsabilidade não pode virar uma palavra bonita usada para mandar alguém suportar aquilo que não deveria ser suportado.

Regras para o bom convívio e consequências para excessos e desvios são obrigatórias. Combater assédio, abuso de poder, sobrecarga e ambientes adoecedores é responsabilidade das organizações e, principalmente, das pessoas que ocupam posições de poder dentro delas. Nada disso desaparece quando falamos em autorresponsabilidade.

Mas também não podemos cometer o erro contrário e imaginar que uma empresa, um departamento de RH ou uma política de saúde mental será capaz de resolver aquilo que cada um de nós carrega para dentro do trabalho.

Porque nós levamos tudo.

Levamos nossa história, nossos medos, nossas inseguranças, nossa necessidade de reconhecimento, nossa dificuldade de ouvir um não, nossa relação com autoridade, nossa capacidade ou incapacidade de colocar limites, nosso cansaço, nossos problemas de casa e até aquilo que não conseguimos admitir para nós mesmos.

E encontramos outras pessoas carregando exatamente a mesma complexidade.

É desse encontro que estamos falando quando falamos de ambiente de trabalho.

Talvez por isso me incomode tanto quando colocamos toda essa discussão apenas na conta da “empresa”. Não porque eu queira diminuir a responsabilidade das organizações. Ao contrário. Quero tornar essa responsabilidade mais concreta. Quem constrói uma cultura tóxica? Pessoas. Quem humilha? Pessoas. Quem silencia diante de um abuso? Pessoas. Quem acolhe? Pessoas. Quem percebe que passou do limite e pede desculpas? Pessoas. Quem ocupa uma posição de liderança e decide que tipo de líder será naquele dia? Pessoas.

A estrutura importa. A cultura importa. As regras importam. O RH importa. A liderança importa.

Mas talvez o ponto mais desconfortável seja justamente este: nenhuma política de saúde mental, nenhum benefício corporativo e nenhum departamento de RH consegue fazer por nós o trabalho que só nós podemos fazer.

Porque o absoluto núcleo de toda essa conversa sobre saúde mental depende de cada um de nós lidando com cada um de nós para, só então, lidarmos melhor com o resto de nós.

Pessoas de ponta a ponta.

Inclusive eu. Inclusive você.

É justamente sobre esse movimento de olhar primeiro para dentro que escrevo em “Antes de falar com o mundo, escute-se.” e que levo também para as minhas palestras dentro das empresas. Porque falar de saúde mental, comunicação e relações humanas sem falar de autoconsciência e autorresponsabilidade é deixar de fora uma parte essencial da conversa.

Se essa é uma discussão que precisa acontecer na sua empresa, me chame para conversar. E, se você quiser começar essa conversa por você, meu livro pode ser um bom primeiro passo.

Sobre a autora:

Marina Machado - Jornalista |  Palestrante em Comunicação, Liderança e Saúde Mental | Instrutora da International Space University | Speaker CBTD 2026

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