Estudos mostram que até 19% dos jogadores de futebol desenvolvem pubalgia, condição que frequentemente está associada a alterações mecânicas no quadril e pode comprometer atletas profissionais e amadores
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| Foto: Divulgação |
A dor na virilha é uma das queixas mais frequentes entre praticantes de esportes que exigem explosão muscular, mudanças rápidas de direção e movimentos repetitivos dos membros inferiores. Embora muitas vezes seja atribuída a uma simples lesão muscular, a chamada pubalgia pode esconder alterações na articulação do quadril que, se não identificadas precocemente, favorecem a persistência dos sintomas e afastam atletas dos treinos e competições.
O problema tem chamado a atenção da medicina esportiva. Estudos internacionais apontam que a pubalgia acomete entre 4% e 19% dos jogadores profissionais de futebol, enquanto levantamentos epidemiológicos indicam que cerca de 55% dos atletas apresentam algum episódio de dor na região do quadril ou da virilha ao longo de um ano. Mais recentemente, pesquisas também passaram a demonstrar uma forte associação entre a pubalgia e o impacto femoroacetabular, alteração mecânica do quadril que pode modificar a forma como o corpo distribui as cargas durante os movimentos.
Segundo o ortopedista e cirurgião de quadril Dr. Thiago Fuchs, essa relação ainda é pouco conhecida fora dos consultórios especializados, fazendo com que muitos pacientes permaneçam meses tratando apenas a musculatura da região, sem investigar a verdadeira origem da dor.
"Hoje sabemos que uma parcela importante dos casos de pubalgia está associada a alterações do quadril, especialmente o impacto femoroacetabular. Quando existe essa alteração mecânica, o organismo passa a compensar os movimentos, gerando sobrecarga nas estruturas da pelve, da virilha e da musculatura adutora e do reto abdominal."
Nos últimos anos, essa conexão passou a ser reforçada pela literatura científica. Um estudo realizado com atletas que apresentavam dor púbica identificou sinais de impacto femoroacetabular em até 86% dos pacientes avaliados, enquanto uma revisão publicada na revista Frontiers in Surgery concluiu que a limitação da mobilidade do quadril aumenta a sobrecarga sobre a região do púbis durante corridas, chutes, saltos e mudanças de direção, favorecendo o aparecimento da pubalgia.
Embora seja frequentemente associada ao futebol, a condição também é comum entre corredores, praticantes de beach tennis, tênis, artes marciais, cross training e esportes de quadra. Os sintomas costumam surgir de forma gradual, inicialmente apenas após treinos intensos, mas podem evoluir até limitar atividades simples do dia a dia.
De acordo com Dr. Thiago Fuchs, um dos maiores desafios é justamente diferenciar uma lesão muscular temporária de um problema articular que exige uma abordagem específica.
"A dor na virilha não deve ser considerada normal, principalmente quando persiste por semanas ou meses. Quanto mais cedo identificamos a causa, maiores são as chances de evitar a progressão da lesão, preservar a articulação do quadril e devolver ao paciente uma vida ativa e sem limitações."
Quando o diagnóstico é realizado ainda nas fases iniciais, o tratamento geralmente envolve fisioterapia especializada, fortalecimento da musculatura do core e do quadril, exercícios para ganho de mobilidade e correção dos padrões de movimento que provocam sobrecarga na articulação.
Nos casos em que existe uma alteração estrutural importante, a cirurgia pode ser indicada. Atualmente, a artroscopia do quadril, procedimento minimamente invasivo realizado por pequenas incisões, apresenta índices de retorno ao esporte próximos de 90%, permitindo que muitos atletas recuperem a mobilidade e retomem suas atividades sem dor.
Para o especialista, além do tratamento adequado, a prevenção também deve fazer parte da rotina de quem pratica atividades físicas regularmente.
"Hoje dispomos de recursos diagnósticos avançados e tratamentos altamente eficazes. O mais importante é não normalizar a dor e procurar ajuda especializada o quanto antes."
A recomendação inclui fortalecimento muscular, treinamento de mobilidade, correção de desequilíbrios biomecânicos e avaliação médica sempre que dores na região da virilha ou do quadril persistirem por mais de algumas semanas. Para especialistas em medicina esportiva, reconhecer precocemente a origem do problema pode fazer a diferença entre uma recuperação rápida e meses de limitação física, afastamento das atividades e comprometimento da qualidade de vida.