Artista compartilha sua formação como leitora e como isso afeta a criação artística
![]() |
| Créditos: Adriana Leo |
Muito além da compositora de canções que marcaram a música brasileira, Adriana Calcanhotto chega ao Clube de Leitura CCBB 2026 para compartilhar uma dimensão menos conhecida do grande público: a de leitora apaixonada, especialmente de poesia no encontro do dia 15/7, quarta-feira, e que tem como título A Poesia e a Cena.
"Vai ser uma conversa sobre os livros que me formaram, os que li mais de uma vez, os que me acompanham como leitora e como autora e como isso aparece no Saga Lusa, onde experimentei o quanto a literatura salva", conta Adriana, referindo-se ao livro no qual narra os imprevistos de sua turnê portuguesa de 2008. Entre noites sem dormir, shows tumultuados e uma forte gripe tratada com medicamentos, a artista enfrentou um surto psicótico induzido por remédios e precisou interromper a agenda. Em recuperação num quarto de hotel, ela encontrou na escrita uma forma de atravessar o medo, recuperar a lucidez e transformar uma experiência difícil em uma narrativa inventiva.
Embora a obra musical de Adriana Calconhotto seja amplamente reconhecida, a literatura ocupa um lugar central em sua formação artística. Leitora de poesia por excelência, Adriana construiu um repertório marcado pela síntese, pela delicadeza da expressão subjetiva e pelo diálogo constante com autores que atravessam suas canções, muitas vezes de forma explícita.
Ao longo de sua trajetória, revelou admiração por poetas brasileiros e estrangeiros que ajudaram a moldar seu universo criativo. Nomes como Caetano Veloso, Antônio Cícero, Ferreira Gullar, Wally Salomão e Fernando Pessoa figuram entre suas referências mais frequentes, compondo uma rede de influências que conecta literatura e música de forma singular.
Segundo a curadora e mediadora do Clube de Leitura CCBB, Suzana Vargas, a própria artista já afirmou que suas leituras acontecem de maneira livre, guiadas sobretudo pelo prazer intelectual e artístico. Mais do que um projeto de formação sistemática, trata-se de um encontro espontâneo com textos capazes de despertar sua curiosidade, sua imaginação e sua sensibilidade.
“Essa relação íntima com a literatura ajuda a compreender uma das características mais marcantes da obra de Adriana. “Em suas letras e composições, a precisão da linguagem, a economia verbal e a força da sugestão parecem ecoar uma das lições fundamentais da poesia: muitas vezes, menos é mais”, acredita Suzana, para quem a literatura — especialmente a poesia — aparece como uma fonte permanente de alimento criativo para a artista. “Sua trajetória revela uma leitora ao mesmo tempo exigente e sofisticada, capaz de transformar experiências de leitura em matéria estética, sem perder a leveza e a naturalidade que caracterizam sua produção”.
A escolha de Calcanhotto para o Clube de Leitura CCBB parte justamente do desejo de apresentar ao público essa face leitora. O encontro será uma oportunidade para conhecer suas preferências literárias, seus autores de cabeceira e as leituras que ajudaram a formar uma das vozes mais importantes da cultura brasileira contemporânea.
Nos últimos anos, Adriana também ampliou sua atuação como divulgadora da poesia ao organizar antologias e projetos editoriais. Entre eles está a Antologia Incompleta da Poesia Contemporânea Brasileira (2016), iniciativa que reforça seu compromisso com a circulação da literatura e com a descoberta de novos leitores. Seu trabalho como curadora e organizadora de textos poéticos contribui para aproximar admiradores de sua música do universo dos livros.
Referência para diferentes gerações dentro e fora do Brasil, Adriana demonstra que a leitura pode ser uma poderosa fonte de inspiração, formação e refinamento artístico. Sua presença no Clube de Leitura reforça uma ideia cada vez mais necessária: a de que leitura e criatividade caminham juntas e que os livros continuam sendo uma das mais importantes ferramentas para ampliar a percepção do mundo.
Mais do que um encontro sobre literatura, a edição de julho do Clube de Leitura CCBB promete uma conversa sobre os caminhos que ligam a experiência da leitura à criação artística, revelando como uma grande obra também é construída a partir das páginas que a inspiraram.