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| Dra. Letícia Margallo | Foto: Divulgação |
A obesidade ainda é tratada, em muitos contextos, de forma simplificada. Apesar dos avanços científicos e da ampliação das discussões sobre saúde metabólica, o excesso de peso continua sendo frequentemente associado apenas à alimentação inadequada, sedentarismo ou falta de disciplina. Para a endocrinologista Dra. Letícia Margallo, essa visão limitada ignora fatores biológicos, emocionais e comportamentais que influenciam diretamente o emagrecimento e faz com que milhares de pessoas convivam durante anos com culpa, frustração e sensação constante de fracasso.
A percepção da médica começou muito antes da carreira profissional. Como paciente com obesidade, Letícia relata nunca ter encontrado acolhimento verdadeiro ou uma proposta de solução que compreendesse a complexidade do problema. Existiam dietas, cobranças e orientações, mas poucas abordagens capazes de enxergar o paciente além da balança.
Durante a residência em endocrinologia, ela percebeu que o tratamento ainda acontecia de forma tardia, muitas vezes iniciado apenas quando a obesidade já havia alcançado estágios mais graves. Naquele cenário, a cirurgia bariátrica surgia frequentemente como principal alternativa terapêutica, enquanto medidas preventivas e acompanhamento próximo ainda eram pouco valorizados. Além disso, Letícia observava que muitos profissionais evitavam tratar obesidade pela dificuldade em lidar com casos prolongados e pela frustração diante de resultados inconsistentes.
Segundo a endocrinologista, faltava um caminho intermediário entre a negligência e os extremos. Um modelo que oferecesse suporte contínuo, prevenção e tratamento precoce, sem excesso de cobrança e sem responsabilizar o paciente por uma condição multifatorial.
O método não surgiu como protocolo pronto, mas como uma construção progressiva. No início da carreira, Letícia oferecia suporte de maneira espontânea entre as consultas. Com o tempo, percebeu que pacientes que mantinham contato frequente apresentavam maior evolução. A partir daí, o acompanhamento ganhou estrutura. Pacientes passaram a receber contato frequente entre consultas, reforço emocional, monitoramento constante e suporte da equipe.
Dentro do método, o acompanhamento não acontece apenas durante as consultas. O paciente recebe contato frequente entre duas e três vezes por semana, permitindo ajustes rápidos, reforço emocional e acompanhamento constante da evolução. Além do acompanhamento individual, o método também inclui grupos de WhatsApp, interação entre pacientes, contato próximo com equipe e encontros presenciais.
Ao longo dos anos, a endocrinologista identificou um padrão recorrente entre as pessoas que chegam ao consultório. Grande parte relata já ter tentado diferentes dietas, restrições e métodos sem sucesso.
Outro ponto central defendido pela endocrinologista é a compreensão da obesidade como uma doença complexa. Segundo ela, o excesso de peso não nasce apenas no comportamento alimentar, mas em mecanismos biológicos que antecedem o ganho de gordura corporal. Além dos fatores biológicos, a médica reforça que ambiente, experiências emocionais, hábitos aprendidos e a relação entre alimentação e prazer também influenciam diretamente o comportamento alimentar.
Entre os diferenciais do Método Fique Leve estão as pulseiras utilizadas durante o acompanhamento. Inspiradas nas artes marciais, elas representam etapas do processo e funcionam como lembrete visual de comprometimento. Cada troca de faixa representa uma etapa vencida dentro da jornada. Já a faixa preta possui significado ainda mais profundo. Ela não simboliza apenas o resultado alcançado, mas a continuidade do cuidado.
Ao longo da carreira, Letícia acompanhou histórias marcantes. Entre elas, relembra o caso de um paciente que nunca havia visto a balança diminuir desde os 12 anos. Aos 23, ele já acreditava que não conseguiria mudar. Após cerca de três anos de acompanhamento, eliminou mais de 38 quilos.
Além do atendimento clínico, a médica também atua na formação de profissionais da saúde. A iniciativa surgiu da percepção de que sua capacidade de atendimento é limitada. Na prática, médicos que aprendem o método passam a enxergar a medicina de maneira mais próxima. Eles entendem que criar conexão não reduz autoridade profissional, mas amplia a capacidade de gerar transformação.
Ao olhar para o futuro, a endocrinologista acredita que o tratamento da obesidade caminhará para abordagens mais precoces e intensivas.
Para quem já tentou emagrecer diversas vezes e se sente frustrado, Letícia deixa uma mensagem clara: a culpa não é do paciente. Segundo ela, o primeiro passo é compreender que existem ferramentas capazes de ajudar e que procurar acompanhamento é um ato de coragem.
"Desistir não é uma opção. Todos os pacientes que permanecem no processo conseguem construir uma nova relação com o próprio corpo e com a própria história. Afinal, cada faixa preta já foi uma faixa branca que se recusou a desistir."
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