Advogada e mediadora Vivian Gerstler Zalcman explica que o método é eficaz por ser pautado no diálogo, na escuta ativa e na corresponsabilização das partes pela solução do conflito
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| Vivian Zalcman é advogada e mediadora | Foto: Lilian Knobel |
Com mais de 80 milhões de processos em tramitação no país, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Judiciário brasileiro vive um cenário crônico de sobrecarga. Neste contexto, a mediação vem ganhando protagonismo como ferramenta capaz de reduzir o volume de ações judiciais, acelerar soluções e, sobretudo, promover relações mais equilibradas entre as partes envolvidas.
Diferente do modelo tradicional, baseado na lógica do embate e da decisão imposta por um juiz, a mediação propõe um caminho pautado no diálogo, na escuta ativa e na corresponsabilização das partes pela solução do conflito. “A mediação não busca apontar vencedores ou perdedores. Ela cria um espaço seguro para que as pessoas retomem o diálogo e construam juntas uma solução possível”, explica a advogada e mediadora Vivian Gerstler Zalcman, especialista em Direito de Família e métodos consensuais de resolução de conflitos.
A advogada é autora do livro O direito à busca pela felicidade por intermédio da mediação na dissolução do casamento e da união estável, obra que conecta fundamentos jurídicos, filosofia e práticas consensuais.
Embora hoje esteja incorporada à estrutura do Judiciário (com previsão no Código de Processo Civil de 2015 e respaldo em resoluções do CNJ), a mediação ainda enfrenta um desafio cultural no Brasil. “Somos historicamente estimulados a judicializar tudo. Em muitos casos, o conflito se transforma em uma disputa que se retroalimenta, gerando desgaste emocional, financeiro e social desnecessário”, afirma Vivian.
Na prática, a mediação tem se mostrado especialmente eficaz em conflitos familiares, como divórcios, disputas de guarda, pensão alimentícia e sucessões. Segundo a especialista, grande parte desses casos poderia ser resolvida de forma consensual, evitando anos de litígio. “Quando um casal se separa, muitas vezes a relação afetiva é substituída por uma relação jurídica marcada pelo conflito. A mediação ajuda a romper esse ciclo, trazendo o foco para o que realmente importa - especialmente quando há crianças envolvidas”.
A atuação do mediador é justamente a de reorganizar o diálogo, separando questões centrais de ruídos emocionais que acabam inflando o conflito. “Em disputas familiares, assuntos satélites costumam ganhar mais peso do que o bem-estar dos filhos. O papel da mediação é recentrar a conversa e permitir que decisões mais conscientes sejam tomadas”, explica ela.
Além da esfera familiar, a mediação também tem sido aplicada com sucesso em conflitos empresariais, especialmente em empresas familiares, onde relações pessoais e interesses econômicos se misturam. Nesses contextos, a possibilidade de preservar vínculos e garantir a continuidade dos negócios torna o método ainda mais relevante.
Vivian ressalta que a mediação não exclui o litígio, mas o coloca em seu devido lugar. “Existem situações em que o conflito precisa, sim, ser judicializado. Especialmente quando há violência, abuso ou impossibilidade de diálogo. O problema é transformar o litígio na regra, e não na exceção.” Para ela, a eficiência do sistema passa por reconhecer que cada conflito exige uma abordagem diferente.
Com formação acadêmica sólida e experiência prática de mais de duas décadas na área, Vivian acompanha a evolução da mediação no Brasil desde antes de sua consolidação como política pública. “A mediação representa uma mudança de mentalidade. Ela contribui para uma cultura de pacificação social, reduz a sobrecarga do Judiciário e promove soluções mais rápidas, duradouras e humanas”.
Em um cenário em que o Judiciário enfrenta limites estruturais evidentes, a ampliação do uso da mediação surge como uma necessidade. “Resolver conflitos de forma consensual não é abrir mão de direitos; é a forma mais eficiente de garanti-los”, conclui a especialista.