Por Dra. Vanessa Cairolli – Ginecologista
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| Foto: Divulgação |
A retirada do black box warning dos estrogênios bioidênticos marca uma das maiores revisões de paradigma na saúde da mulher dos últimos 20 anos. A decisão, respaldada por evidências científicas apresentadas por especialistas em reunião com o FDA, corrige um equívoco histórico que afetou gerações de mulheres e comprometeu o ensino médico: a falsa associação entre terapia estrogênica e risco aumentado de câncer de mama.
A origem desse equívoco está no estudo WHI, iniciado com a proposta de ser um grande estudo prospectivo envolvendo mulheres na menopausa. Em 2002, o projeto foi interrompido após resultados preliminares sugerirem aumento do risco relativo de câncer de mama. Porém, como explica a ginecologista Dra. Vanessa Cairolli, o estudo utilizou hormônios que não são os empregados na prática atual: estrógenos derivados de urina de égua prenha (Premarin) combinados a uma progesterona sintética, o acetato de medroxiprogesterona — e não hormônios bioidênticos.
A interrupção precipitada do estudo gerou medo, desinformação e uma queda abrupta na prescrição hormonal. “Foram mais de dez anos de impacto negativo no cuidado à saúde feminina”, afirma Cairolli. Durante esse período, consolidou-se uma lacuna na formação médica: estima-se que, dos cerca de 40 mil ginecologistas no Brasil, menos de 18 mil estejam preparados para tratar adequadamente mulheres na menopausa.
Com base em novas evidências, especialistas mostraram ao FDA que a falta de estrogênio causa danos profundos ao organismo: aumento de três a quatro vezes do risco de doença coronariana e infarto, maior incidência de Alzheimer, surgimento da síndrome metabólica, ganho de gordura visceral, elevação do LDL, além de osteoporose, fraturas graves, incontinência e infecções urinárias recorrentes. “O conceito de célula saudável é estrogênio-dependente”, reforça a médica. Até hoje, não há qualquer estudo que associe hormônios bioidênticos ao aumento de risco de câncer de mama.
A menopausa — oficialmente diagnosticada após 12 meses sem menstruação — já representa, por si só, um ano inteiro de deficiência hormonal absoluta. E as alterações começam antes, com mudanças no ciclo, no sono, no humor e no comportamento. Por isso, quando há sinais de deficiência, a reposição deve ser considerada de forma individualizada e segura.
A reposição hormonal bioidêntica, segundo Cairolli, não oferece risco aumentado quando prescrita corretamente. Em contrapartida, fatores como sobrepeso, estresse, noites mal dormidas, tabagismo e álcool sim elevam significativamente o risco de doenças graves.
Com a estimativa de que 1 bilhão de mulheres estarão na menopausa até 2030, o tema deixa de ser apenas clínico e passa a ser social. Mais do que prolongar a expectativa de vida, trata-se de garantir qualidade, autonomia e saúde. Políticas públicas atualizadas e profissionais preparados são essenciais para acolher as mulheres nessa fase — agora com ciência e segurança a seu favor.
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Dra. Vanessa Cairolli – Ginecologista e Obstetra
Formada pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, com residência na Maternidade Leonor Mendes de Barros, a médica possui especializações em Nutrologia (ABRAN), Medicina Estética (ASIME), Medicina Ortomolecular e Longevidade Saudável. Sócia-fundadora da Clínica Vanessa Cairolli, coordena uma equipe multidisciplinar dedicada ao cuidado integral da saúde feminina.
Instagram: @dra.vanessacairoll