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Desde muito cedo, Camila Henning Salmoria já mostrava que seguiria um caminho pouco convencional. Aos 15 anos, enquanto muitas adolescentes sonhavam com festas de debutante, ela fez uma escolha diferente: trocou o vestido por um computador 386 e passou a explorar, por conta própria, os comandos do antigo sistema DOS. A curiosidade pela tecnologia nasceu ali e nunca mais saiu de cena, mesmo quando o Direito se tornou a sua profissão principal.
Hoje, aos 45 anos, Camila é juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Paraná, atua na 5ª Turma Recursal e integra a Comissão de Inovação do TJPR. Com mais de duas décadas de magistratura, ela construiu uma carreira sólida na judicatura, mas decidiu ir além do tradicional. Ao longo dos anos, transformou a afinidade com a tecnologia em uma ferramenta concreta para melhorar a prestação jurisdicional e ampliar o acesso à Justiça.
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Durante a graduação em Direito pela UFPR e nos estágios iniciais, a tecnologia já fazia parte do cotidiano. Era comum que Camila ajudasse colegas a resolver problemas de informática ou a lidar com sistemas digitais. Essa habilidade ganhou ainda mais relevância quando o Judiciário iniciou a transição do processo físico para o eletrônico. A partir de 2014, com a implantação do processo eletrônico nas Turmas Recursais, sua atuação na área tecnológica se intensificou. Em 2017, ao assumir a relatoria dos assuntos ligados ao Projudi, participou diretamente da gestão do sistema e da criação do ambiente de julgamentos virtuais.
Foi nesse período que veio a virada de chave. Camila percebeu que, para construir soluções melhores e mais responsáveis para o Judiciário, não bastava apenas conhecer o Direito: era preciso entender a linguagem da tecnologia. A partir daí, investiu de forma consistente na formação técnica. Além do Direito, graduou-se em Inteligência Artificial, fez especialização em Direitos Digitais e concluiu um mestrado em Direito com foco no uso da inteligência artificial generativa no Poder Judiciário. Atualmente, cursa Ciência da Computação, aprofundando ainda mais essa ponte entre duas áreas que, para ela, precisam caminhar juntas.
Essa combinação de prática institucional, pesquisa acadêmica e inovação resultou em mais de uma dezena de projetos desenvolvidos nos últimos anos, muitos deles em parceria com outros tribunais. O marco mais recente dessa trajetória é o lançamento do Ajuizei, um assistente virtual baseado em inteligência artificial voltado à atermação de processos nos Juizados Especiais Cíveis, para causas de até 20 salários mínimos. A ferramenta foi pensada para atender, principalmente, cidadãos que ingressam na Justiça sem advogado, ajudando a reduzir barreiras de linguagem e compreensão. Por meio de uma conversa em linguagem simples, o sistema transforma a narrativa espontânea do usuário em um pedido juridicamente estruturado, já adequado aos requisitos processuais.
O projeto entra em fase piloto em duas comarcas do Paraná, que somam cerca de 1.500 formulários por ano. A expectativa inicial é atender aproximadamente 200 demandas nos primeiros 60 dias, com previsão de expansão em 2026. Para Camila, o Ajuizei é a prova de que a inteligência artificial pode ser usada de forma ética, responsável e com impacto social real, sem substituir o juiz ou a decisão humana, mas apoiando, organizando e ampliando a capacidade do Judiciário de cumprir sua função.
Além da atuação prática, Camila mantém forte ligação com o meio acadêmico. Desenvolve pesquisas na interseção entre inteligência artificial e Poder Judiciário, com foco em avaliação de impacto ético, testes de sistemas de IA, desenvolvimento de robôs e uso de inteligência artificial generativa aplicada a protocolos de julgamento com perspectiva de gênero e racial. Esse trabalho já resultou na coordenação de livros e projetos editoriais. Para 2026, estão previstas a publicação de um livro baseado em sua pesquisa de mestrado, voltado a uma aplicação prática e acessível da IA no Judiciário, e a coordenação da obra “Magistradas: justiça, sistemas de inteligência artificial e inovação na ótica delas”.
Fora do gabinete, Camila também encontra espaço para a criatividade e o equilíbrio. Desenho, aquarela, costura, corrida, natação, yoga e meditação fazem parte da rotina e, segundo ela, ajudam diretamente no raciocínio, na concentração e na forma de pensar soluções. Durante a pandemia, fundou a ONG Retalhos e Nós, voltada à sustentabilidade e à economia circular, transformando resíduos têxteis em peças doadas para outras instituições. Em 2023, criou o coletivo Todas da Lei, com o objetivo de levar o conhecimento acadêmico para além dos muros da universidade, usando as redes sociais como ferramenta de divulgação.
Com uma presença discreta nas redes sociais, Camila soma cerca de 660 seguidores no Instagram, onde compartilha reflexões sobre tecnologia, justiça e inovação. Ainda assim, é frequentemente procurada por profissionais interessados em entender como a inteligência artificial pode melhorar rotinas de trabalho e gerar soluções mais eficientes.
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Quando questionada sobre o futuro, ela é direta: quer investir no aperfeiçoamento e na ampliação do Ajuizei. Para quem deseja seguir a magistratura ou atuar no Direito, deixa um recado claro: investir em formação tecnológica amplia a visão prática e prepara melhor para os desafios atuais. Para Camila Henning Salmoria, a Justiça do presente e do futuro passa, necessariamente, pela inovação — desde que ela esteja sempre a serviço das pessoas.