Colunistas - Heródoto Barbeiro

A capital da esperança

13 de Agosto de 2020

Por Heródoto Barbeiro 

A mudança da capital não é uma ação  impune. Os cofres públicos, confortavelmente cheios com os impostos, têm que bancar um projeto tão extraordinário. É um desafio imenso e que somente um povo com garra e determinação pode executar. Os homens e mulheres que se dispõem  a mudar para a nova capital tem certeza que não  ficarão a ver navios, uma vez que o erário existe exatamente para isso. A gorda burocracia, detentora das engrenagens da máquina pública esperam algum benefício em troca do sacrifício da mudança. Um deles e o residência na nova cidade. Afinal tiveram que deixar a confortável e pacífica que viviam para se arriscar em um ambiente desconhecido. Portanto nada mais justo que as casas sejam fornecidas pelo Estado. Além dos governantes diretos, políticos, membros do poder judiciário, da saúde, educação, obras públicas e um sem número de assessores, só não sobrou moradia para pobres e trabalhadores de todo tipo. Estes moram em choupanas miseráveis, com o esgoto à céu aberto e que vivem da prestação de qualquer tipo de serviço. De abastecer as cozinhas dos ricos à prostituição gerenciada por proxenetas com nível social.

Os recém chegados não estão preocupados com os destinos do Brasil. Primeiro querem se instalar e engordar os proventos com o maior número possível de vantagens que garantem a eles e seus descendentes uma vida digna e saudável. Nem mesmo os governos europeus tem tanto servidores a sua disposição sem nada darem em troca. O transporte de autoridades é cuidado com o dobro de pessoas, o que deixa a monarquia britânica com uma pontinha de inveja. Contudo é preciso  alimentar o alto escalão dos poderes do Estado. E somente um ano depois da mudança da capital foram consumidos 200mil galinhas, 33 mil perus, e 90 dúzias de ovos por dia. Nessa época ainda não se acreditava que gema de ovo faz aumentar o colesterol. As compras dos cardápios são  realizadas da forma mais discreta possível. Já pensou se o povo soubesse que além dessa galinhada toda fossem compradas lagostas, caviar, vinho com pelo menos quatro prêmios internacionais. O menu exigido inclui bobó de camarão, camarão à baiana, pratos como bacalhau à Gomes de Sá, frigideira de siri, moqueca baiana e capixaba além arroz de pato. Ops ia esquecendo que os vinhos devem ser de safra igual ou posterior de 2010 envelhecido em barril de carvalho francês ou americano, ou ambos, de primeiro uso por período máximo de doze meses.

Infelizmente a compra não pode ser realizada por falta de verba, mas o governo promete que no futuro tudo isso seria levado aos almoços, jantares e cocktails das autoridades. É só uma questão de tempo diz o chefe de estado. A nova capital se revestiu da prática da caixinha, uma forma mais terna de se dizer corrupção. Cobra-se para ganhar concorrências e pagamentos dos serviços públicos 17%. Se não pagar os processos não andam. A corte portuguesa chegou ao Rio de Janeiro, a nova capital do reino. Moradores são jogados na rua e os endinheirados “doam “  boas vivendas para o príncipe regente D.João, sua esposa Carlota Joaquina e toda a filharada. Entre eles o príncipe D.Pedro, futuro imperador. Com Portugal ocupado pelo exército de Napoleão há outra saída para a colônia, que foi a vaca leiteira do erário por 300 anos, produzir aqui o que era proibido até bem pouco tempo como o comércio, fábricas de tecidos, ferro, cordoaria, navios... A impressão que se tem é que os brasileiros herdaram  algo mais do que a língua e a cultura da terra do Camões. A instalação da família real no Rio de Janeiro é apenas um exemplo. Inspirado no maravilhoso livro do Laurentino Gomes, 1808.

·Heródoto Barbeiro é editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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