Cultura - Teatro

Do Amor, peça de Phillipe Minyana, tem única apresentação em Mogi das Cruzes

10 de Novembro de 2015

O tempo e as memórias da vida permeiam toda a obra que conjuga humor e anarquia, sensibilidade e ironia.

Após temporada de sucesso na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, o espetáculo ?Do Amor? ­ do francês Philippe Minyana ­ tem única apresentação em Mogi das Cruzes, no dia 26 de novembro?, quinta-feira, no Theatro Vasques, às 20 horas.

 

?Francisco Medeiros? assina a direção desse texto contemporâneo e, até então, inédito no Brasil, que teve tradução da atriz Amanda Banffy?.

 

Com extrema sensibilidade, o autor mostra a passagem do tempo na vida de dois casais, desde a juventude até o fim da vida, destilando nas entrelinhas uma ironia ferina, temperando tudo com um humor mordaz e impiedoso. Os acontecimentos ordinários da vida, como amor, envelhecimento e morte, são questões fundamentais à obra. Os personagens Christina, Bob, Ted e Mylène são figuras mutantes, múltiplas, contraditórias. Não há caracterizações físicas e a interpretação é revezada pelos casais de atores ?Amanda Ban?ffy ?e ?Carlos Baldi?m?, Leonardo Antunes ?e? Laís Marques?.

 

Do Amor conduz o espectador pela vida dos dois casais: em sua sala, nas montanhas, no verão, com os amigos, nas adversidades, aos 30 ou 70 anos. Ora eles têm um ar sério e empolado como pessoas em luto, ora são adoráveis velhinhos. É possível observar suas vidas sem glórias pelos ritos inevitáveis como ?funerais, reuniões, aniversários. Suas vidas comuns se tornam uma espécie de epopeia, mistério secular, onde o amor é consolo ou derrota ou mesmo uma idéia que os assombra. A memória funciona como intuição de futuro, leitura presente e registro passado. A arquitetura do texto aponta também para uma memória que pode ser construída de imaginação, sob o ponto de vista alegórico que emerge da experiência de estar vivo. As cenas enigmáticas podem ser fragmentos de sonho, delírio, pesadelo ou divagação.

 

A linguagem dramatúrgica de Philippe Minyana em Do Amor ?explora a palavra cotidiana e a transforma em teatro épico. A banalidade da ficção e do discurso é reforçada por um dispositivo textual original. Além do texto dos atores, as rubricas descritivas e poéticas (sobre tempo, silêncio, pássaros) são ditas por um comentarista, chamado Voz Off, e as rubricas narrativas por outro, denominado Texto. Faladas por todos os atores, em revezamento, essa rubricas divagam sobre a atitude dos personagens contradizendo-os ou se reportando ao interlocutor. Esses diálogos polifônicos criam discrepâncias, oposições e rupturas particularmente ricas e fantasiosas.

 

Segundo Francisco Medeiros, Minyana é um experimentador. “?Do Amor Foi escrito sem pontuação para que os atores possam também experimentar a pontuação, a pulsação do texto, e descobrir sua musicalidade, seu ritmo”. Ele ainda explica que o processo de montagem é pleno desafio na busca por uma linguagem cênica nova e autêntica para esta obra.

 

A cenografia (?Heron Medeiros?), a iluminação (?Igor Sane?), o figurino (?Marichilene Artisevskis?) e a trilha sonora (?Dr. Morris?) têm papel fundamental na encenação de Francisco Medeiros, sendo agentes de configuração que, magicamente, expõem as diversas dimensões e profundidades que a peça aborda. O diretor acata o desafio da obra de Minyana que propõe uma estética enigmática, uma plasticidade que explora o espaço e flerta com as artes visuais. O cenário é calcado em uma caixa retangular, com uma espécie de ciclorama ao fundo e espelhamentos na frente e nas laterais. A cenografia se presta às imagens sugeridas pelo texto que passam por texturas turvas ou cristalinas, transparências ou reflexos, duplicações e nebulosidades.

 

Para o diretor, ?Do Amor não é uma peça para, necessariamente, ser compreendida ­ com começo, meio e fim. “Os estilos épico, dramático e lírico são combinados de forma anárquica tanto nos fatos quanto na estrutura. A encenação, portanto, precisa fazer com que esta anarquia esteja presente com todo o seu rigor”. Convidado pela atriz e produtora Amanda Banffy para dirigir o espetáculo, Francisco Medeiros confessa que foi movido pelo desafio. Após ler o texto declarou: “Não sei o que isto significa. Não entendo, por isso quero fazer”.

 

Ficha técnica

 

Espetáculo: ?Do Amor

Texto: Philippe Minyana

Tradução: Amanda Banffy

Direção: Francisco Medeiros

Elenco: Amanda Ban?ffy, Carlos Baldi?m?, Leonardo Antunes e Laís Marques

Assistente de direção e preparação corporal: Fabricio Licursi

Cenografia e adereços: Heron Medeiros

Trilha sonora: Dr Morris

Figurino: Marichilene Artisevskis

Iluminação: Igor Sane

Direção de produção e administração: Maurício Inafre

Assistência de produção: Mya Morales

Fotos: Flavio Barollo
Assessoria de imprensa: Verbena Comunicação

Realização: Cacildinha Produções

Co-realização: Banffy Produções Artísticas

 

Serviço

 

Dia 26 de novembro. Quinta­feira, às 20 horas

Theatro Vasques

Rua Dr. Corrêa, 515 ­ Centro. Mogi das Cruzes/SP. Tel: (11) 4798-1747

Ingressos: Grátis - Os ingressos devem ser retirados 1h antes das sessões.

Duração: 80 min. Gênero: Comédia dramática anárquica. Classificação: 16 anos

Capacidade: 300 lugares. Ar Condicionado. Possui acessibilidade.

 

 

Philippe Minyana? ­ autor

 

Nascido em 1946, em Besançon, o francês Philippe Minyana (Philippe Miñana) escreveu cerca de 40 peças de teatro, publicadas pela Éditions Théâtrales e L’Arche Éditeur e montadas na França, Alemanha, Inglaterra, India, Argentina, Brasil e Quebec. Alguns textos foram lidos numa rádio francesa nos programas Nouveau Répertoire Dramatique e Radios Drames. E alguns ganharam versões para a televisão, como ?Chambres, dirigido por Bernard Sobel (1986), e ?Anne­Marie? por Jérôme Descamps (2001), entre outros. Escreveu o roteiro do telefilme ?Papa Est Monté au Ciel, ?dirigido por Jacques Renard. E em 2008, junto a Comédie Française, criou a peça ?La Petite Dans la Forêt Profonde.

 

Após ganhar o Grande Prêmio de Teatro (2010) ?da ?Académie Française? pelo conjunto da obra, Minyana foi convidado a apresentar seus cinco textos mais recentes, agrupados sob o título ?Les epopées de l’intime?, no Théâtre des Abbesses e no Théâtre Ouvert, em Paris. Dentre as cinco peças estava ?Do Amor?, que teve sua estreia em março de 2011. Além de ser um autor premiado, dois textos seus ­ ?Chambres e ?Inventaires ­ são leituras obrigatórias no Bacharelado em Artes Cênicas na França. Entretanto, poucos textos seus foram encenados aqui no Brasil, onde o autor ainda permanece pouco conhecido, não havendo nem mesmo tradução para o português da maior parte de sua obra.

 

Além do Grande Prêmio de Teatro, recebeu o Prêmio SACD para ?Inventaires?, Prêmio Molière de Melhor Autor (1988 e 2006) e Prêmio da Crítica Musical e Molière (1991) de Melhor Espetáculo Musical para ?Jojo?. Para muitos, sua obra sofre certa influencia do dramaturgo e encenador Michel Vinaver, com quem trabalhou como ator. O dramaturgo – que não esconde a sua fascinação pelas artes visuais (cinema, artes plásticas, fotografia) – também assume que a sua escritura teatral será sempre um laboratório. Fatos cotidianos contidos em recortes de jornais ou depoimentos de pessoas são matérias­primas para seu trabalho. No Brasil, poucos textos seus foram encenados, a exemplo de André (direção de Christiane Jatahy), ?Inventários – O Que Eu Guardei Pra Você ?(Grupo Cena, direção de Guilherme Reis), ?Suíte 1? (Cia. Brasileira de Teatro, direção de Marcio Abreu).

 

Francisco Medeiros?­ diretor

 

Francisco Medeiros nasceu em São Paulo, 1948. Formado em Direção Teatral, Crítica e Dramaturgia pela ECA­USP, é diretor de espetáculos de teatro, dança e ópera. Iniciou a carreira em 1973 e dirigiu mais de 100 espetáculos, entre eles: ?Fando e Lis?, de Fernando Arrabal, ?Artaud, O Espírito do Teatro?, de José Rubens Siqueira, ?Réquiem?, de Hanoch Levin e ?Facas nas Galinhas?de David Harrower.

 

Desde 1999, é diretor artístico do Núcleo Argonautas de Teatro, que já desenvolveu dois projetos selecionados pela Lei de Fomento ao Teatro: ?O Que Morreu, Mas Não Deitou e

Terra Sem Lei?.

 

Além de teatro, sua atuação na área da dança como diretor inclui trabalhos com o Grupo Cisne Negro (?Iribiri?), com Antonio Nóbrega (?O Reino do Meio­Dia?), entre outros. Em ópera, no Teatro Municipal de São Paulo, dirigiu ?Eugène Oneguin?,de Tchaikowski, com regência do maestro Isaac Karabtchevsky.

 

Recebeu 40 prêmios, como Molière, Mambembe, Inacen, APCA, Apetesp, Governador do Estado, Coca­Cola Femsa, Panamco, além de 12 indicações para o Prêmio Shell de Teatro como Melhor Diretor ou na Categoria Especial. Destaque para o prêmio Internacional Angel Award, pelo espetáculo ?Flor de Obsessão?,do Grupo Pia Fraus, considerado o melhor espetáculo de teatro físico do Festival Internacional de Edimburgo, em 1999.

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